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o violão brasileiro de Othon Salleiro

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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jorge_mello_at_ibest.com.br
Data: Sex 26 Set 2003 - 07:49:50 BRT

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                                  Apresento um dos personagens mais fascinantes da nossa música:

         O violão brasileiro de OTHON SALLEIRO

No livro “Música Popular Brasileira Estilizada” de autoria de Henrique Pedrosa(Editora Universidade Santa Úrsula,1988) encontramos na página 143 a seguinte constatação: “Em termos de violão a maior barbaridade é o esquecimento e quase total descaso quanto a Othon Salleiro. Perguntem subitamente a um violonista erudito como João Pedro Borges quem é o Ernesto Nazareth do violão atual. Othon Salleiro será a resposta”. Fui ao lançamento do livro, que contou com um maravilhoso recital de Rafael Rabello...Esta questão do Othon desde então ficou me incomodando. Realmente muito pouco se sabe a seu respeito. Para alguém obstinado que procure no Google, nos sites sobre violão ou mesmo no Dicionário Cravo Albin, nada encontrará. Por outro lado, uma incursão na discografia brasileira de 78 rpm também nada revelará. Então ele não compôs ou gravou? Transcrevo a seguir algumas informações obtidas nas minhas fontes e que podem ajudar a delinear o perfil de um dos mais interessantes e origina
 is violonistas brasileiros. Isto sem mencionar o grande compositor que foi.
         Othon Sivaldo Vaz Salleiro nasceu na cidade do RIO DE JANEIRO no início do século passado. Aos dezesseis anos torna-se aluno de Quincas Laranjeiras e sua vocação musical começa a incomodar seus pais, que desejavam vê-lo formado em Medicina. Passa então um período de reclusão no Rio Grande do Sul, fixando-se em Porto Alegre. Neste período produz algumas de suas composições favoritas. Retorna ao Rio de Janeiro e, em 1929, podemos ver sua fotografia na revista “O Violão” de Março, com a seguinte legenda: Othon Sivaldo Vaz Salleiro, risonha esperança da virtuosidade do Violão e alumno do professor Gustavo Ribeiro( nesta foto ele aparece tocando violão na casa Cavaquinho de Ouro). Aos vinte e oito anos ingressa na Faculdade Nacional de Medicina, onde se forma e faz mais tarde especialização em Psiquiatria. Trabalhou como Psiquiatra no Hospital do Engenho de Dentro durante quarenta anos, mas nunca perdeu a proximidade com a música! Conviveu com os grandes chorões como o já
  citado Quincas Laranjeiras, João Pernambuco, João da Baiana, Pixinguinha e um ilustre visitante:Agustín Barrios. O point era o “Cavaquinho de Ouro”, mas as noitadas podiam se estender para a Lapa. Era a nata da boemia ! Todo mundo enchia a cara e depois bebia leite para rebater...Barrios provavelmente foi quem mais influenciou Salleiro, passando para este a importancia do apuro técnico e o gosto pelo folclore. Reza a lenda que, quando Segóvia por aqui esteve em 1937, ficou impressionado com o virtuosismo de nosso patrício e não se furtou em dar-lhe conselhos . Também Narciso Yepes, outra celebridade, ao vê-lo tocar “Batucada-choro” ficou tão impressionado que passou a incluir esta música de Salleiro em seu repertório. Compositor muito inspirado, teve como parceiros João dos Santos, João Pernambuco e Julinho Ferramenta (célebre chorão da Ilha do Governador). Com estes e Pixinguinha, freqüentava os saraus da casa de Jacob do Bandolim, de quem foi padrinho de casamento. Era
 m quase vizinhos...Um belo dia, acabaram por se estranhar e a amizade terminou. Conheço duas versões para este acontecimento: Uma (a que consta na biografia de Jacob) diz que eles brigaram porque Salleiro teria humilhado um violonista iniciante num sarau. A outra atribui isto ao fato dele afirmar que a valsa “Santa Lorena”( de autoria de Jacob) era sua. A idéia que temos de Salleiro, ao ler esta biografia de Jacob, é a pior possível! Ele é reduzido a uma figura bizarra que, por um impulso exibicionista, terminou por ser excluído do sarau por Jacob!
      Admirado por muitos violonistas ele foi, nas palavras de Sérgio de Pinna. : “Um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos...”. Nicanor Teixeira não poupa elogios quando diz que ; “O Salleiro para mim era um cara fantástico, que dividia seu tempo entre a música e a psiquiatria”. Tão grande quanto o violonista e o compositor, foi o professor que em trinta e três dias de curso intensivo proporcionou ao então novato Sebastião Tapajós uma desenvoltura técnica que seria admirada em sua vitoriosa carreira e até por Emílio Pujol, que se tornaria mais tarde o seu mestre na Europa. “ Foram dias de trabalho intensivo. Começávamos às sete da manhã e só largávamos às sete da noite”, disse-me Tapajós.
       O único registro que temos do Salleiro como violonista é o incrível LP “ Violão Brasileiro-Othon Salleiro”, Musidisc-HI-FI 2115. Neste disco ele passeia por vários ritmos através de composições suas e que nos remetem a várias partes do nosso Pais. Estas são músicas muito bem elaboradas e com soluções harmônicas bastante interessantes. Trata-se sem dúvida de um compositor muito sofisticado e suas músicas possuem um alto nível de dificuldades em termos de execução. São dez músicas com os seguintes títulos: “Batucada-choro”; “Excelsa”; “Viola da saudade”; “Ternura”; “Reminiscências cariocas”; “Confidências”; “Côco-baião”; “Chimarrita”; “Luar dos trópicos” e “Festa do Bonfim”. Felizmente tenho este LP e posso afirmar que se trata de uma obra de muita qualidade!
         Em 1999, ano em que Salleiro faleceu, aparece o CD “Homage”(edições musicais Aguiar) do Violonista Nélio Rodrigues apresentando dezesseis composições de Salleiro, a maioria inéditas! Este lançamento passou desapercebido, mas fornece uma clara visão da genialidade do compositor. Este é o violão brasileiro de Othon Salleiro.

                                             Abraços, Jorge Mello.

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