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Fabiana Cozza e Ó do Borogodó no No Mínimo

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Roberta Valente (robertavalente_at_bol.com.br)
Data: Sex 26 Set 2003 - 01:19:35 BRT

Já falei dessa cantora maravilhosa aqui. Pra mim, ela é uma das maiores revelações do Brasil das últimas décadas. Podem me chamar de exagerada o quanto quiserem. Acho que vcs deveriam parar um pouco de falar de Maria Rita e tentar conhecer a Fabi...
A propósito, o primeiro disco dela já está quase pronto...
Roberta

Fabiana Cozza

23.Set.2003 | É quase uma seita. Toda segunda-feira por volta de dez e meia da noite, pouco mais de cem pessoas reúnem-se numa antiga fábrica de São Paulo para cultuar o que Vinicius de Moras acreditou enterrado por ali. Por pura ironia, o fazem diante do muro branco do cemitério de Vila Madalena, numa velha fabriquinha de bairro transformada no Ó do Borogodó, nome do bar que em tudo e por tudo contraria sua principal atração, a extraordinária cantora Fabiana Cozza. Quando a mulata de 27 anos toma a frente da roda de samba acanhada, reunida em torno de duas mesinhas, tem-se aquela certeza íntima, emocionada, de se estar diante de um imenso talento.

Os escritores Marcelino Freire e Ivana Arruda Leite há muito estão entre estes fiéis e generosamente decidiram compartilhar comigo esta pequena maravilha que, ingrato e boquirroto que sou, agora tento espalhar para o maior número de pessoas possível. Não quero com isso me gabar do presente que ganhei dos amigos paulistanos - orgulhosos do samba diante de um carioca boquiaberto e com frio - mas torcer para que esta voz excepcional saia por aí distribuindo suíngue e melancolia com a categoria que demonstrou na semana passada.

Filha de engenheiro, criada no mundo das escolas de samba da cidade em que nasceu e vive, Fabiana Cozza transpira esta formação em cada nota, cada divisão precisa. É parte, e já tão jovem, da linhagem de artistas que fazem com que "samba paulista" não seja xingamento ou ironia. É da escola de Paulo Vanzolinni, Eduardo Gudin (com ele participou do "Notícias Dum Brasil- Pra tirar o chapéu", de 1998) e, no estilo, bebe declaradamente na fonte chique de Márcia, a intérprete preferida do compositor de "Ronda". É um samba mais lento, menos sincopado e, quem o canta, o faz contando histórias, narrativamente, "dizendo" a letra e tirando desta sobriedade todo tipo de emoção.

Como tantos jovens que hoje dedicam-se ao samba, Fabiana costura um repertório com clássicos do gênero, mas de todas as extrações possíveis. Pode ser puro improviso em "Influência do jazz", emular o balanço manso do Wilson Batista de "Louco" e até homenagear o outro Wilson, o das Neves, com sua enumeração de influências de "O samba é meu dom", parceria com Paulo César Pinheiro menos conhecida do que deveria. Tempera isso com a melancolia jobiniana de "Você vai ver" e fica à vontade, completamente em casa, em "Refém da solidão", aí em total sintonia com entonação e divisão características de Márcia - cujo fantástico "Ronda", de 1977, acaba de sair num CD 2 em 1 EMI, dividido com "Viagem", de Marisa Gata Mansa.

Com um time destes é difícil jogar para perder. Mas o grande pulo do gato de Fabiana Cozza é que nada disso é feito na base da pura afinação ou da preocupação exagerada com a performance - embora ela não escorregue jamais e tenha uma baita elegância cênica. Fabiana Cozza é toda aquele tipo de emoção densa, contida, sem dramas ou arrebatamentos. Como poucos de sua geração, encharca cada palavra com vivências - que, como as do poeta, não precisa necessariamente ter vivido.

Torço para que se concretize aquele lugar-comum "você ainda vai ouvir falar de Fabiana Cozza". Enquanto isso, organize-se, pegue um avião se preciso for, e caia no samba - o túmulo, lembre-se, fica do outro lado da calçada.

Paulo Roberto Pires
No Mínimo

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