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Re:__Re:_Fitas_métricas

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Clarimundo Flôres (clariflores_at_yahoo.com.br)
Data: Qui 25 Set 2003 - 10:22:21 BRT

É isso mesmo!
Fernando Toledo <fernandotoledo@hobeco.net> wrote:Alberto Cavalcanti durante os intervalos de filnagem:
>
> Não disse que uma é "melhor" que a outra. Disse que o universo da poesia é
> "maior" que o da letra de música. Que, portanto, o gênero letra de música
> "cabe" dentro do universo da poesia, como uma espécie de subdivisão desse
> gênero, ao passo que o universo da poesia "não cabe" dentro do subgênero
> (sub não como inferior, mas como divisão, a exemplo de subtipo, subitem
> etc.) letra de música.
>
> Evito afirmar "melhoridades" e "pioridades", mais ainda na Tribuna, porque
> implica julgamento de valor, implicando, portanto, a assunção de uma
posição
> de juiz, uma posição de superioridade, que dificulta as trocas de opinião.
>
> A música popular, como a conhecemos, é uma invenção do séc. XX, assim como
o
> cinema e as historinhas de detetive.

Eu:
De acordo. E eu acrescentaria: a música popular como a compreendemos hoje é
o fruto da reprodutibilidade, certo? Até o século XIX, sem o registro
fonográfico, somente sobreviviam as músicas populares transmitidas oralmente
(geralmente - com exceções, friso - para uum público reduzido, delimitado
geograficamente). As músicas eruditas, a que era conferido (pelos seus
contemporâneos de maior poder aquisitivo) outro juízo de valor, eram
conservadas sob a forma de partituras.
O acesso ás partituras, como bem se pode imaginar, não era muito simples, e
nem todos podiam montar uma orquestra de trompas em seu quintal para ver
como é que aquilo soava, mas tergiverso.
Com a reprodutibilidade, a música popular alcançou outro status: quem há de
negar que o rádio (antes até dos toca-discos) teve uma significância enorme
para esta alteração de status? E os discos, evidentemente?
O que era restrito a meia dúzia de moradores de uma vila passou a ser
consumido em larga escala. Isto gerou uma outra forma de se valorar a música
popular, de lhe agregar conceitos e definições. Basta observar a criação de
Ary e Noel (que criaram já numa época em que o rádio e os discos deixavam de
ser incipientes), em relação à obra de Caninha Doce, por exemplo. Existe uma
tentativa de produzir algo mais duradouro, um produto mais fechado, ao
contrário das improvisações e aditamentos que eram feitos coletivamente e de
que sinhô tanto se valeu, exímio pegador de passarinhos que era.
Exemplos claros: "Pelo Telefone" e "Patrão, prenda seu gado", em que as
diversas partes da música não chegam a constituir uma unidade, soando em
certos momentos como coros improvisados, meros refrões de fácil assimilação.
Notem bem: não estou dizendo que um resultado fosse pior ou melhor. estou
simplesmente analisando dois diferentes processos de criação, e as
circunstâncias (rádio, discos) que geraram alterações no processo inicial.
Curioso como a reprodutibilidade provoca mudanças radicais: "Dom Quixote" e
"Madame Bovary" são exemplos literários de auto-referências literárias:
Quixote enlouquece a partir da leitura de romances de cavalaria.
Emma constrói toda a sua vida e caráter a partir de devaneios causados pela
leitura de romances alugados em bibliotecas volantes. Mary McCarthy (viúva
de Edmund Wilson, autora de "Pássaros da América") afirma que "Madame
Bovary" é o primeiro livro que trata dos efeitos da Literatura como produto
industrial. A diferença entre "Quixote' e "Madame Bovary": Dom Quixote era
um fidalgo, rico às pampas, podia adquirir volumes que eram, á época, quase
que manufaturados. No caso da Emma, já era uma indústria, aquilo estava ao
alcance de qualquer um (ou quase qualquer um). Não é à toa que ele coloca em
cena um personagem que é o rei do lugar-comum e do colecionador de rapapés,
o farmacêutico Homais, modelo para o Conselheiro Acácio.
Um abraço,
Fernando Toledo

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