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Re: _Re:_Fitas_métricas

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Clarimundo Flôres (clariflores_at_yahoo.com.br)
Data: Qua 24 Set 2003 - 07:21:48 BRT

Quanto ao cinema, meu intuito foi dizer que é uma expressão artística nascida no século, ou melhor, desenvovida no século XX, é uma arte nova. Música sempre existiu. Mas sem dúvida a música tornou-se uma força ainda mais poderosa no século XX, ainda mais com o incremento dos novos meios de comunicação e da inserção de novas regiões do planeta no mapa da música internacional.
Concordo quando você diz que poesia e letra de música têm diferenças inerentes a cada uma delas; mas não posso fazer o mesmo quando você diz que uma é melhor que a outra.

"Alberto R. Cavalcanti" <arcav@brturbo.com> wrote:
Olá, Clarimundo

Desculpe se errei o alvo ou o tom. Me pareceu, sim, que sua afirmação de que
"A grande expressão da arte do século XX foi o cinema. Ponto." era algo
peremptória. Tanto pelo uso seco do verbo ser quanto pela "oração" sem
verbo. E que, sim, v. estava afirmando que o cinema seria maior que a música
popular: "...foi a grande expressão de arte...". Mas, pode ser que meu
peremptômetro e meu peremptoscópio estejam descalibrados. Vou cuidar disso
(vale a advertência).

Por outro lado, embora eu defenda que letras de música podem ser equiparadas
a poemas literários (nem todas, nem sempre), acho defensável que a poesia
literária seja considerada potencialmente "maior" que a letra de música.
Ponho esse "maior" aí entre aspas por várias razões. Em primeiro lugar, por
causa da questão da fita métrica, que muitas vezes é por demais subjetiva.
Em segundo lugar, porque "maior" não é o melhor termo para estabelecer a
comparação.

Esse terreno não é minha especialidade nem estou recorrendo a qq. estudo.
Posso então estar cometendo terríveis disparates. Clemência!

Tentando traduzir o "maior" para termos mais objetivos e, portanto, mais
adequados à discussão, eu diria que a poesia literária, considerada em seu
todo, abrange uma variedade de manifestações que é mais ampla do que a que é
cabível em letras de música, mesmo música "clássica". Embora seja possível
musicar Os Lusíadas, Dante, A máquina do mundo (Drummond) etc., nosso senso
comum indica que o resultado não seria alvissareiro. Trata-se de poesia
literária, portadora de dotes específicos de ser poesia literária.

Não é apenas porque os poemas literários podem ser (bem) maiores que as
letras de música que o campo da poesia literária se faz maior que o da letra
de música. Os poemas também podem ser menores, como na Serenata Sintética,
de Cassiano:

Rua
torta.

Lua
morta.

Tua
porta.

Nem o "Bim bom" do João Gilberto é tão curto. E olha que o Bim Bom já
provocou em sua época um ouriço bem bom. A dificuldade de pôr esse poema
cassiânico em música, inda mais música popular, decorre da maior
padronização desta, em comparação com as possibilidades da poesia literária.
A canção popular tem lá seus tantos compassos, primeira e segunda parte, e é
preciso, ao fazer a letra, pôr uma sílaba em cima de cada nota da melodia.
Se não, fica uma canção "incompleta".

Dessa maior variedade das formas que o poema literário pode assumir, decorre
também, ao menos em parte, a maior variação da profundidade com que os temas
podem ser desenvolvidos. Aliás, essa liberdade propriamente literária também
se estende ao vocabulário, que pode ser mais rico e liberto na poesia
literária, sobretudo se a comparação se faz com a letra da música popular,
cujo pressuposto é a busca de uma inteligibilidade relativamente fácil e
ampla, o que costuma levar a soluções menos heterodoxas. Há exceções. Para
tudo há exceções. Entretanto, essa é a tendência logicamente predominante. A
canção popular, tal como a conhecemos, pertence ao universo da cultura de
massa.

O mesmo se pode dizer dos temas. A poesia literária sente-se mais livre para
tratar todo o tipo de temas. À música popular, embora nenhuma "lei" impeça a
mesma liberdade, a busca da audiência, que lhe é imanente, tolhe parte não
desprezível dessa liberdade potencial. Estou procurando e não estou
encontrando a mensagem de alguém (Daniel? não tenho certeza) que chamou a
atenção para o fato de que, na música popular, as ditas e desditas de amor
são temática bem mais freqüente que na poesia literária. É o mesmo que estou
dizendo neste parágrafo.

A fala está em nossa história há muito mais tempo (centenas de milhares de
anos?) que a música. Individualmente, apreendemos a fala em idade tão tenra
que, depois, é como se estivesse incorporada ao patrimônio genético (isto é
só força de expressão; afirmo logo que não está). Talvez por isso a maioria
de nós tenha dificuldade para identificar músicas, quando executadas apenas
instrumentalmente, e só consigamos identificá-las quando lembramos um pedaço
da respectiva letra.

É curioso, isso: a força que tem para nós a letra da música. Pois a relação
de fatura entre o poema e a música, no caso da letra de música, é uma
relação de escravo e senhora. É mais fácil juntar palavras e formar frases
que compor música. Daí a predominância da relação "escravizadora" do texto
pela música. Dessa "escravização", resulta uma perda de liberdade do autor,
na situação de fazer letra de música, em comparação com a de fazer poema
literário.

Dessa perda de liberdade, de autonomia, parece-me cabível, sim, deduzir que
a letra de música seja um gênero "menor", dentro do amplo território da
poesia, assim como a crônica, sujeita aos limites impostos pelo editor do
periódico e pelo diagramador, pode ser considerada um gênero "menor" (sempre
entre aspas, please), comparado com o conto, a novela e o romance. Em ambos
os casos: "maior" liberdade vs. "menor" liberdade, podendo implicar "maior"
uso de engenho & arte vs. "menor" uso etc.

Agora, quem pode mais, pode menos. Então, essa maior liberdade da poesia
literária também lhe permite concretizar-se sob formas equivalentes às das
letras de música. O que de fato amiúde ocorre. E é aí que se estabelece o
que eu chamo de território comum, e que no meu sentimento é um território de
mão dupla.

Há muito poema musicável. Bandeira, por exemplo, diz que fez vários de seus
poemas numa perspectiva musical (ele preferia a música à poesia, declarou;
queria saber fazer música e começou a estudar orquestração
autodidaticamente, no Tratado Orquestração, de d'Indy). E a Balada do Rei
das Sereias (Bandeira-Caymmi), que já citei em mensagem de ontem, é, no meu
sentimento, um belo e magnífico exemplo de poema tornado canção, mesmo com
as ênclises. É uma canção "semi-clássica", se v. me permite. Como eu não
conhecia o poema antes de ouvir a canção, e gostei dela "à primeira vista",
o poema literário é para mim, desde então, primordialmente letra de música.

Na perspectiva inversa, penso que há muita letra de música que sobreviveria
muito bem como poema literário. O autor nem precisa ser poeta ou mesmo
letrista habitual. "Duas contas", do Garoto, é, para mim, um lindo poema
lírico, com a irresolução paradoxal do sujeito que prossegue feliz, embora
num caminho escuro, cheio de desilusão e dor, apenas animado pela
possibilidade de que os olhos da amada (que lhe corresponde no amor? não
corresponde? não é possível ter certeza) soubessem...

É claro que, quando a gente toma conhecimento do poema pela primeira vez,
ele já em sua função de letra de música, torna-se dificílimo dissociá-lo da
melodia. Inda mais se texto e música combinam muito bem. Para recuperar em
nós mesmos a possibilidade de receber a letra de música em sua condição de
poema, é preciso exercitar uma capacidade de "descentração". É preciso
aprender a ver as coisas abrindo mão daquilo que a gente "sabe". Quanto mais
certezas a gente tem, e quanto mais arraigadas elas estão, quanto mais
dependemos das muletas delas para prosseguir em "nosso caminho escuro, cheio
de desilusão e dor", mais difícil é descentrar. E, portanto, mais difícil
vai sendo encontrar novas luzes. Legal, não é?

Já vi que entraram novas mensagens, inclusive suas. Para encerrar este já
longuíssimo relambório, transcrevo um "texto poético". Lembrei dele porque
cita seu nome. Cancão de fogo (não é canção), para o tribuneiro que
eventualmente não o saiba, é figura mitológica da literatura de cordel
nordestina.

Dois Amor

Oswald Barroso

Eu era dois corrupio,
Dois braço do mesmo rio,
A correnteza era eu.

Eu era porta e janela,
Eu era eu era ela,
Um caso que assucedeu,

Um cravo que a cidade
Fez partir pela metade
E cada parte morreu.

Coração sem cor é aço,
Cantador sem canto é dor,
Matuto sem mato é tudo,
Só não é mais dois amor.

Você tá me vendo, não.
Você só tá vendo o oco,
Vulto de fogo apagado,
Toco de vela sem luz.
Você tá me vendo, não.
Foi-será cancão de fogo,
Reimundo disparecido.

Foi-será prinspo das águas,
Clarimundo disclarido.
Você tá me vendo, não.

Negro zumbindo no dia,
Zua, meu preto Zumbi,
Feito marmota de rua
Visagem faz puraqui.
Espelho cego me trouxe
Encantado como fosse
Desencanto de Saci.

E esse meu penar endêmico,
de suor lacrimogênico,
foi-será a juriti.

O que você tá me vendo
É a chapa negativa.
Rasga mortalha de asfalto
Alma penada cativa.
Você não me vê o rosto
Só me arrepara o encosto
Da poeira radioativa.

Não soube nem saberá,
O que foi sempre será
Dois amor de brasa viva,
Dois amor de brasa viva...

Eu era dois corrupio,
Dois braço do mesmo rio,
A correnteza era eu.

Eu era porta e janela,
Eu era eu era ela,
Um caso que assucedeu.

Um cravo que a cidade
Fez partir pela metade
E cada parte morreu.

Abraço

Alberto
de Brasília, DF

Em Tuesday, September 23, 2003 8:32 AM, Clarimundo disse

> Alberto, creio que você não leu o que escrevi e está confundindo tudo.
Estou justamente dizendo o mesmo que você, que não podemos dizer que isso é
maior ou melhor que aquilo em arte. É isso aí, tô contigo.

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