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Mas afinal, o Chico Buarque não é poeta?

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Ter 23 Set 2003 - 02:11:51 BRT

Publicado no Boletim CARTA MAIOR:

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Mas afinal, o Chico Buarque não é poeta?

A velha discussão sobre letra de música não ser poesia ganha reforço do
próprio Chico Buarque

Fábio Brazil

Outro romance?

Quando Chico Buarque de Hollanda lança um romance, ocorre por parte da
crítica e do público um misto de estranhamento e expectativa. As
expectativas a respeito da obra de Chico Buarque de Hollanda foram criadas
pela qualidade da obra que ele legou à Música Popular Brasileira, o
estranhamento dá-se porque o maior letrista da MPB agora dedica-se aos
romances,( “se ao menos fosse poesia...” )

Foi assim com Estorvo ( 1991), Benjamim ( 1995 ) e agora com Budapeste
recém-lançado pela Companhia da Letras ( 177 págs. - R$ 29,50 ). As
expectativas costumam transformar-se em frustração, afinal, “não é o Chico”
e o estranhamento segue pelo motivo da frustração, afinal é um romance e não
as geniais letras das belíssimas canções que o autor já compôs.

Sobre o romance Budapeste e aos demais romances deixo o trabalho de crítica
aos especializados no assunto, interessa-me aqui esses sentimentos em
relação à obra de Chico Buarque de Hollanda. É inegável que Chico Buarque é
um dos mais brilhantes letristas da MPB e é voz corrente chamá-lo de “ o
Poeta da MPB”. Voz corrente entre os leigos e entre muitos críticos de
Música. Interessante é que o próprio Chico já sentenciou : “letra de música
não é poesia“; mas quem levou isso a sério diante de tantas letras geniais
que ele próprio criou, “verdadeiros poemas”.

É realmente estranho ver o “nosso poeta” saltar da letra diretamente para o
romance, não seria o seu habitat os poemas? “Não” afirmaria a imensa camada
da crítica que acredita ser poesia a obra de Chico Buarque na MPB. E afinal,
não é poesia ?

Afinal, de quem é a culpa ?

Não me permito afirmar que não exista outro país onde a relação LETRA/POESIA
seja tão forte como no Brasil, (falta-me conhecimento para tanto); mas, como
qualquer pessoa com afinidade com a MPB, afirmo sem pestanejar que nós temos
uma tal qualidade de letristas que podemos chamá-los de Poetas.

Mas o caso é que resiste ainda a sentença de Chico Buarque "letra de música
não é poesia".

E não é mesmo. Assim, precisamos entender porque no Brasil há tantas
pessoas, com maior ou menor grau de conhecimento do assunto, dizendo serem
as duas a mesma coisa.

Há questões correntes e claras que não podemos esquecer.

Um primeiro aspecto é que a poesia escrita é fruto da poesia cantada, ou
seja, primeiro fomos cantores; cantamos nossos deuses, nossas colheitas e
nossas dúvidas e cantávamos para tornar a fala/oração/canto/poema mais fácil
de decorar e de amolecer o coração dos Deuses; foram as canções de ritmar o
trabalho, as orações e os rituais cantados que deram origem tardia e
posterior à poesia escrita. Muito do que as pessoas com conhecimento
superficial sobre a poesia reconhecem como sendo a essência da Poesia é a
herança mais visível dessa origem (versos de tamanho regular com acentuação
simétrica e as rimas puras no final dos versos).

De outro lado, há aspectos profundamente brasileiros, pertencentes à
história do Brasil que também conduzem à confusão entre Letra e Poesia, há
dois aspectos principais, um positivo e outro negativo.

É inegável, o Brasil é um país de iletrados, pautado na cultura oral onde
apenas um em cada quatro brasileiros possui domínio satisfatório da
linguagem escrita, é um país onde o número total de livrarias é menor do que
as que existem somente em Buenos Aires, onde o número de municípios sem
livraria no Brasil é arrepiante e onde a presença e a qualidade da televisão
reflete a ausência de livros. Num país tão miserável em termos de Letras
(desculpem o trocadilho) o que esperar da poesia escrita?

Claro, vivemos um vácuo na poesia escrita; não há registro de qualquer poeta
no Brasil que tenha vivido do seu ofício assim como também não há um livro
de poesia com uma tiragem maior que 5.000 exemplares. O Brasil analfabeto e
ignorante dos seus grandes poetas faz com que a poesia escrita seja
atrofiada e quase morta entre nós. Mas, felizmente, não morta de todo, em
termos macro-estruturais, é nas Letras das canções que os brasileiros
alimentam-se de poesia e a poesia brasileira encontra o fiapo de sol que a
mantém viva. Se concordamos com Psicólogos, Filósofos, Antropólogos e
Humanistas em geral de que o Homem tem uma necessidade simbólica e que a
Arte supre algo dessa necessidade, o quinhão de poesia dos brasileiros
sempre veio embalado por música.

Nós, classe média culta e intelectualizada esperamos muito dos letristas
porque não temos poetas, os poucos que escrevem não publicam, os poucos que
publicam não vendem, os poucos que vendem alguma migalha entre os amigos são
sonoramente ignorados pelo total da população, até pela classe média culta e
intelectualizada. Essa classe média consome e exige letras de alto teor
poético, mas não consome poesia. Estaria essa mesma classe média culta e
intelectualizada que cobra de Chico Buarque novas, geniais e poéticas
canções disposta a comprar-lhe livros de poesia? Ou torceria o nariz mais do
quem torcido aos romances do “poeta maior da MPB” ?

O aspecto positivo da História do Brasil é Noel Rosa, Ari Barroso, Cartola,
Humberto Teixeira, Chico Buarque de Hollanda, Aldir Blanc, Caetano Veloso,
Alceu Valença, Arnaldo Antunes, Cazuza, Lupicínio Rodrigues, Tom Zé,
Gilberto Gil, e uma infinidade de gritantes injustiças que devo estar
cometendo em não elencar aqui tantos e tantos outros letristas geniais que o
Brasil registra. Por sorte, temos em nossa tradição moderna - se me permitem
o paradoxo -, um conjunto de autores que são além de compositores populares
geniais são também letristas completamente diferenciados. Isso nos coloca a
questão LETRA x POESIA num patamar muito difícil de discutir e diferenciar
com rigor e precisão. (Entre as gritantes injustiças, estão os de vida
dupla: Paulo Leminski, Vinícius de Moraes, Bernardo Vilhena, Capinan e
Torquato Neto).

Afinal, letra é poesia ?

Seria muito fácil fugir dessa questão, bastaria afirmar que a divisão
precisa dos gêneros nunca existiu e que de qualquer forma a modernidade e a
pós-modernidade aboliram todas as fronteiras. Mas isso seria obscurecer mais
as coisas... Encaremos os fatos: letra de música não é poesia.

Ambas trabalham com palavras, mas a seleção lexical é completamente
diferente, a poesia é muito mais flexível em relação a palavras diferentes
das de uso comum no nível da fala; a letra raramente exige um léxico fruto
de escolarização além do primário. Mesmo os melhores letristas nunca se
arriscaram a levar o ouvinte ao dicionário, coisa que os poetas não têm o
menor pudor. Aliás, poetas criam e recriam significados para as palavras
muito além dos registrados no dicionário e fazem reviver significações das
palavras que antes existiam somente nos dicionários e que o poema faz
veicular novamente, além é claro: a poesia inventa palavras as letras quase
nunca.

Ambas organizam as orações segundo um modelo musical, mas a poesia vai muito
além disso, enquanto a poesia incorpora o corte musical, o visual, o de
tempo de respiração do leitor, o dos jogos lógicos que os corte permitem, a
letra é sempre submissa à música, dependente da música, só conhece um tipo
de corte e privilegia versos simétricos o que redunda normalmente num ritmo
comum e subserviente à música.

Ambas apóiam grande parte de seu efeito estético na sonoridade das palavras,
mas a poesia exige um trabalho muito mais complexo do que a letra; abrindo
mão da música, a poesia tem que apostar toda a sua sonoridade nas próprias
palavras, é preciso um estudo específico sobre o conjunto de consoantes e
vogais com que se está lidando a cada poema e a relação dessa massa sonora
com a respiração do leitor e com o conjunto de informações que se quer por
verso para criar o efeito imagético e lógico que se pretende no poema. Tudo
isso deve ser feito para que o poema seja dado como pronto; além, é claro,
de levar-se em consideração a sonoridade dos cortes e das pausas que o texto
propõe; já a letra, conta com a ajuda do cantor para espremer a esticar
vogais e versos, pode recorrer ao LALAILA e ao OÔOÔ-IEIE sem prejuízo algum,
enfim, pode apostar todas as fichas num verso regular com rima pura no final
que dará tudo certo.

Ambas relacionam-se com o fruidor através das palavras, mas a poesia
estabelece uma relação muito mais complexa e completa. A poesia, por
apresentar-se desnuda e presa ao papel, dá-se ao leitor inteira e exige que
ele também dê-se por inteiro a ela, vão conviver sozinhos e intimamente por
um certo tempo (o da leitura e o de quantas releituras houver), mas sempre
sozinhos e íntimos até que o fruidor esteja pronto a partilhar seu prazer
naquele poema com outras pessoas (declamando ou entregando-o à leitura),
isso faz com que o leitor tenha que entregar-se para poder ler o poema e ter
prazer, deve calar-se para ouvi-lo, a poesia é um amor-exigente, difícil, é
preciso dedicação. Já a letra não, ela vem vestida de música,
despudoradamente sedutora (mas nunca nua), já chega compartilhável e quanto
menos exigir, melhor o resultado; aliás, se nada der ou tirar, se não fizer
notar-se é o ideal, se simplesmente o fruidor decorar e cantarolar sem
prestar atenção, a letra cumpriu seu papel.

Tanto a poesia quanto as letras de canções tratam normalmente dos chamados
temas líricos (em oposição ao tema Épico), temas ligados ao EU poético.
Ocorre que as letras, em sua esmagadora maioria, tratam apenas de uma única
dimensão lírica: “o amor romântico”, nada mais. Mesmo entre os letristas
mais geniais da MPB, a maioria das letras trata de “amor romântico”. A
poesia é muito mais flexível em relação aos temas, aborda o EU sob imensidão
de outros aspectos e, mesmo quando debruça-se sobre o aspecto do “amor
romântico”, olha-o de forma muito mais completa e complexa do que apenas a
posse/perda/conquista/distância do objeto amado.

A poesia exige um leitor atento, pressupõe entrega e profundidade de
leitura, é possível pensar em ler poemas e vender sapatos ao mesmo tempo ?

Já a letra tem sido feita e pensada para que passe despercebida, um bom
exemplo disso é a presença maciça de música popular inglesa e
norte-americana na mídia e nas casas brasileiras sem que entendamos as
letras. Ignoramos o que consumimos e cantamos. Seria possível pensar em
grande quantidade de livros em inglês da excelente poesia de língua inglesa
na casa de brasileiros monoglotas? Não; a poesia precisa de um leitor
entregue para que possa entregar-se.

O Chico Buarque de Hollanda sempre soube de tudo isso, mesmo quando
fazia-nos cantar seus poemas, mandava-nos ao dicionário e atrapalhava as
conversas e os afazeres para que o escutássemos.

Mas afinal, é possível ler e escutar Chico Buarque ao mesmo tempo?

FOTO: Mário Luiz Thompson

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