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Re: Maria Rita no Jornal Nacional

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Alberto R. Cavalcanti (arcav_at_brturbo.com)
Data: Sáb 20 Set 2003 - 08:51:50 BRT

Olá, Valldir

Obrigado por comentar.

Creio que, de fato, v. destacou uma parte da minha mensagem que não ficou bem resolvida, não ficou clara. E, com isso, me dá oportunidade de esclarecer.

Veja. Que há um incômodo, creio não haver dúvida. Nem todos estão incomodados, mas muitos estão. É um fato, matéria de constatação, não de opinião (minha). Basta ver as manifestações na Tribuna, a começar pela que eu estava comentando, do Márcio Almeida. Pode-se discutir se há ou não razões objetivas para fundamentar o incômodo de alguns (muitos? poucos? não contei). Mas não creio que se possa discutir a esta altura se há um incômodo.

Na minha mensagem, eu não usei o adjetivo "ruim", que implica um julgamento de valor. Apontei, sim, duas questões. (1) Que o esforço de marketing me parece "over" e que isso incomoda a mim. E (2) que há uma sensação de "injustiça". Eu coloquei esse termo entre aspas, para indicar um distanciamento meu em relação a tal julgamento, que, como disse, existe, é um fato constatável na própria Tribuna. Veja só, eu não disse que há injustiça, sobre o que caberia uma discussão mais extensa, na qual mal toquei. Apenas afirmei que há um sentimento de "injustiça". A constatação da existência desse sentimento não implica nossa concordância com o julgamento nele implícito.

Aí, a minha imprecisão. Vejo, pelo seu comentário, que não distingui claramente o que era opinião minha (certo excesso no esforço de marketing) daquilo que parece ser opinião que vai se disseminando entre várias pessoas, ainda que sem unanimidade (a desigualdade no tratamento a diferentes artistas promissores no início da carreira). Aliás, sabemos, as unanimidades são burras.

Embora tenda a concordar com o Toledo (vou comentar a mensagem dele daqui a pouco), não posso deixar de ver duas outras questões embutidas nesse "desequilíbrio", "proteção", "injustiça" ou que outro nome alguns queiram dar à maneira como tem sido feita a promoção do lançamento da carreira de Maria Rita pelas Organizações Globo.

Em primeiro lugar, penso que há uma questão de ética pública. Emissoras de televisão e de rádio são um serviço público, explorado por empresas privadas em regime de concessão do Poder Público. Conceder significa transferir. Algo da responsabilidade própria do Poder Público se transfere ao concessionário, no ato da concessão. Parece-me portanto cabível discutir se o uso da força desses instrumentos está ou não em contato com aquele princípio jurídico fundamental desta nossa civilização, segundo o qual o Poder Público deve tratar a todos com isonomia. Na medida em que a concessão se faz a empresas privadas e estas, por definição, buscam o lucro, as emissoras concedidas passam a responder a duas lógicas atravessadas, não raro conflitantes: de um lado, o interesse público, que decorre de sua origem fundamental de concessão pública; de outro, o interesse privado, que decorre de sua lógica de ser comércio, busca de lucro. Esse é um debate que, até onde entendo, está aberto. Aberto e candente. É um dos grandes debates da contemporaneidade. Debate mais interessante e pertinente, ainda, quando se leva em conta que, mais que servir de mídia para exibição de anúncios alheios, a emissora é utilizada para alavancar negócios do grupo que detém a concessão.

É importantíssimo observar que não estou aqui afirmando assim, tout court, sem mais aquela, que o Jornal Nacional faltou com a ética pública. Nem que não faltou. Estou apenas afirmando que é uma questão cabível, uma discussão pertinente.

Em segundo lugar, há uma questão de ética jornalística. Essa ética, até onde sei, recomenda que os veículos façam uma distinção clara entre o que é anúncio, movido pelo interesse comercial, e o que é matéria jornalística, movida por uma lógica de servir ao leitor/ouvinte/telespectador.

Nos órgãos impressos, como jornais e revistas, tem crescido o uso da expressão "informe publicitário". Quando o anunciante procura o jornal com um anúncio cujo leiaute se assemelha ao tratamento gráfico que se costuma dispensar às matérias jornalísticas, a ética recomenda que seja colocado um "fio" em torno do anúncio, encimado pela expressão "informe publicitário". Dessa forma, fica o leitor claramente avisado de que aquilo, embora pareça notícia, é anúncio e não corresponde ao critério editorial daquele periódico. Que, portanto, se não fosse pago, não estaria ali.

O mesmo tipo de recurso tem sido empregado em televisão, inclusive na Globo, que, pelo que ouço dizer, é muito ciosa nessas questões, ao menos quando se trata de publicidade de produto externo à sua própria lógica corporativa.

Não vi a matéria do Jornal Nacional. Fiei-me nos vários relatos e comentários que sobre ela surgiram na Tribuna, para entender que ali não se explicitou, em nenhum momento, que há um interesse comercial das Organizações Globo no lançamento da carreira da filha de Elis Regina. Se minha impressão está equivocada, isto é, se na matéria, em vez de apenas se sublinhar que surgiu a "sucessora natural e legítima da maior cantora brasileira de todos os tempos", também se esclareceu que as Organizações Globo têm interesse comercial no sucesso dessa cantora, então esta segunda questão -- a da ética jornalística -- está resolvida, restando apenas a da ética pública.

Mas, se não ficou explícita a dimensão comercial dessa "matéria", então creio que é, sim, cabível a discussão dessa questão pela perspectiva da ética jornalística.

Então, por essas duas questões éticas, mesmo não tendo necessariamente que concordar com aqueles que manifestaram seu incômodo com a "injustiça", eu entendo que a opinião deles não é desqualificável.

Quanto ao meu incômodo com o que está me parecendo ser um excesso de marketing, ele é animado por duas preocupações. A primeira (1) é que a demasia na ênfase mercadológica muito dificilmente se coaduna com o desenvolvimento de um(a) artista. O sucesso obtido por esses esforços intensivos e demasiados de marketing são como que guiados por aquele verso de Vinicius: "que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure". A pressa é imanente ao grande esforço de marketing. Com os juros estratosféricos que imperam no Brasil, então, a pressa tende a ser ainda maior. Há um custo do dinheiro investido, que não se reduz ao custo-oportunidade.

O grande e intensivo esforço de marketing feito para o sucesso de um filme, por exemplo, difere, em sua estratégia e efeitos, do que é feito sobre um artista. O filme, se v. se seduz pelo esforço promocional, v. vai lá, assiste, pode assistir uma segunda vez, num assomo de entusiasmo, e pronto. Acabou. Só pode ser relançado daqui a bastante tempo, para pessoas que não puderam ver na época do lançamento original.

Uma artista é diferente. Ela precisa de permanência, continuidade. Um desgaste prematuro, provocado pela exposição excessiva, pela propaganda de uma excessiva expectativa em torno do que ela promete, pode "queimá-la" junto ao público. Seria uma pena se isso acontecesse com ela. Não é o que lhe desejo. Quero que ela seja maratonista. E é muito difícil, senão impossível, ser maratonista e velocista ao mesmo tempo.

A segunda (2) é que, num país tão desigual na distribuição de oportunidades, e no qual, por isso mesmo, se dissemina um sentimento de repulsa a apadrinhamentos de poderosos, aos favorecimentos etc. (no qual, de resto, não está ausente a inveja), esse excesso de marketing contribua para criar um caldo de antipatia (derivado daquele sentimento de "injustiça"), que tampouco lhe seria benéfico.

V. me deu a oportunidade para esclarecer. Não sei se esclareci ou compliquei.

Vai junto o abraço do

Alberto
de Brasília, DF

Em Friday, September 19, 2003 4:17 PM, Valldir apontou a (aparente) contradição:
  Concordo em quase tudo que você falou. Assinaria embaixo não fosse uma citação que eu achei contraditória com o que você fala no corpo do texto:

  "O que eu creio que está incomodando é essa demonstração de força do império.
  Incomoda, inclusive, perceber que o uso dessa força é "injusto", isto é,"escolhe alguém para beneficiar e deixa de fora outros artistas que, pelo nosso sentimento, também mereceriam apoio desse aparato mercadológico."

  Ora, se o esquema mercadológico é tão ruim como você diz, porque lamentar-se se outros artistas ficam de fora?
  Acho que a sua análise é perfeita no mais. Vi a Maria Rita cantar com o Chico Pinheiro e, como falei nesta Tribuna, senti muito mais da sua personalidade como cantora do que neste trabalho, onde vendem a filha da Elis.
  Aguardo outro trabalho da Maria Rita. Talvez ela, já com uns trocos no bolso, possa produzir um CD onde se sinta mais à vontade e não se entregue tão de braços abertos ao marketing fonográfico.

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