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Re: Maria Rita no Jornal Nacional

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Tiago Mali (tiagomali_at_yahoo.com.br)
Data: Qui 18 Set 2003 - 23:24:39 BRT

Caro Cesar de Vila Isabel,

    Também gostei muito do CD da Maria Rita, tem boas interpretações e o timbre da voz chega a dar um arrepio. Mas a questão que se coloca aqui não é só a qualidade. Mesmo com todos os méritos da cantora, parece-me evidente a ação de uma gigantesca estratégia de marketing que há algum tempo não via. Não sejamos aqui ingênuos de acreditar que ela apareceu no Fantástico, no Jornal Nacional e vai ter um show transmitido em especial pela Globo pela sua qualidade. Não que ela não tenha qualidade, mas, sejamos razoáveis, a Globo (como a maioria das televisões) não utiliza esse critério para colocar artistas. É só tentar lembrar: Qual foi o último artista em começo de carreira que a Globo deu exposição? Um bom argumento dizer que além da qualidade, o fato dela ser filha de Elis deperta curiosidade (o que é verdade), mas isso ainda não justifica. Se fosse simples assim, o Pedro Mariano também teria tratamento parecido (embora sua música até tenha aparecido no Fantástico, ele não teve um ínfimo dessa publicidade).

    Qual o critério então? A não ser que a gente adimita desde agora que a Maria Rita é totalmente genial (como a mãe foi) e um caso completamente atípico que mereça todo esse destaque (o que, sinceramente, pelo que ouvi, AINDA me parece longe de ser verdade), a conclusão é de que ela está aparecendo tanto na mídia por conta de uma vigorosa estratégia de marketing (o que sabemos que no Brasil pode incluir jabá e outras coisas). Pra não ficar só na especulação, mando abaixo matéria do JT (uma parte da matéria, já que no site não tem inteira) que mostrou um pouco do que a Warner está apostando em termos de divulgação na Maria Rita. (Só lembrando que nesse dia ela foi capa ou destaque de tudo quanto é caderno cultural).

Não que não mereça divulgação, ela tem qualidade. Mas todo esse estardalhaço é o que Zuza Homem de Mello chama de "ansiedade da indústria de se criar ídolos rapidamente, sem um trabalho sólido". A moça é boa sim, mas acredito que se não fosse todo o marketing em cima, ela ainda estaria lutando mais vagarosamente e conquistando seu espaço aos poucos (o que sempre fez um bem danado pro amadurecimento dos artistas).

Grande Abraço,

Tiago Mali

Matéria abaixo:

O FURACÃO MARIA RITA
JÚLIO MARIA

Não se vê operação parecida há pelo menos dez anos na indústria da música brasileira. Os ventos que anunciam a estréia de Maria Rita Mariano chegam com força de furacão. A Rede Globo quebra regras para recebê-la em sua programação. A Warner faz investimento inédito para lançá-la. A agência W/Brasil a coloca em cena com uma pesada campanha de publicidade. A crítica se sincroniza para cair de joelhos.
    Filha de Elis Regina e Cesar Camargo Mariano, Maria Rita arde exatamente na situação da qual tentou fugir desde que sentiu o desejo de cantar pela primeira vez: ser alvo de uma expectativa nacional. Ser filha de quem é a fez tomar uma série de cuidados e pregar os dois pés no chão. Cantar sim, mas deixando claro que jamais pensa em ocupar um trono vago.

Fora de controle, sua estréia faz estardalhaço pela conjunção de um astro bom com um astro mau. Quem só a conhece por 'herdeira de Elis' a quer para ganhar audiência em programas de televisão. Quem já a conhece por Maria Rita porque a viu em um palco investe no que a própria gravadora apresenta como "a cantora que todo mundo estava esperando."

O 'Fantástico' fez com Maria Rita o que não fez com nenhum artista estreante em seus 30 anos de história. No último domingo, apresentou uma entrevista com a cantora de quatro minutos, seguida por um clipe de 3,5 minutos da música 'Festa'. Os clipes do programa raramente passam de dois minutos. "Assisti dando gritos para desestressar. Eles já haviam me chamado bem antes, mas não fui porque não tinha muito o que dizer", lembra Maria Rita.

Nova investida virá no domingo, dia 28, quando a Rede Globo exibirá um especial gravado durante em um show em São Paulo de 1h20 com Maria Rita - outro feito sem precedentes. "Nossos parceiros trabalham com a sensação de que finalmente chegou uma grande novidade na música brasileira. Mas nossos investimentos estão sendo seguros, perto da realidade", garante Marcelo Maia, diretor de marketing da Warner Music.

As apostas são cada vez mais altas, mas não traduzem nenhuma artimanha pensada pela própria cantora. Vivendo preferindo não aprender a jogar o jogo das celebridades, Maria Rita toma decisões que a livram das acusações de oportunista. Seu irmão, João Marcelo Bôscoli, é diretor da gravadora Trama, que teria poder de fogo para lançá-la com dignidade. Sua resposta ao ser convidada: não. "Sempre tentei evitar o caminho mais fácil. Me sinto muito julgada às vezes. Poderiam falar coisas do tipo 'ah, lançou o disco porque o irmão é diretor'. Fiquei com receio, isso poderia tirar minha autenticidade." Seu irmão, o cantor Pedro Camargo, e seu pai, o arranjador Cesar Camargo Mariano, não aparecem nem como colaboradores. "É meu primeiro disco. Quero que seja a minha voz, que nada desvie as atenções."

O caso Maria Rita é especial porque um micro descuido aciona um gatilho e o tiro acerta o próprio pé da cantora. A associação Maria Rita-Elis Regina é ruim para a gravadora porque não dá fôlego a uma artista que quer trabalhar em longo prazo. "Nosso plano de marketing não é baseado nessa estratégia. Queremos trabalhar Maria Rita por Maria Rita", diz Maia. Se a mídia explorar sua imagem com o intuito de reforçar as semelhanças, haverá uma mudança de postura por parte da cantora. "Não é minha vontade ser distante do público. Mas se sentir uma invasão de minha privacidade, isso vai acontecer", fala a artista. Não dá para entender a capa do disco. Se ninguém quer comparações, por que uma foto em que Maria Rita está a cara de Elis Regina? Enigmas do caso Maria Rita.

  ----- Original Message -----
  From: Cesar Oliveira
  To: tribuna@samba-choro.com.br
  Sent: Thursday, September 18, 2003 9:39 PM
  Subject: [S-C] Maria Rita no Jornal Nacional

  Sambistas & Chorões:
  Juro que faço uma força danada, dentro das parcas limitações intelectuais de
  que sou provido, para tentar entender porque o lançamento da Maria Rita
  Mariano faz as pessoas terem síncopes. Ora chovem protestos em nossa
  Tribuna. Ora, um sujeito escreve uma cara desaforadíssima a O Globo,
  reclamando da repercussão. Ora, as pessoas se indigam por suas entrevistas
  ao Fantástico e ao Jornal Nacional.
  Caramba, Maria Rita é uma belíssima cantora, afinadíssima e canta bem pra
  burro. Produziu um lindo disco de lançamento, com belas músicas e arranjos.
  Eu, que já tive o prazer e a emoção de vê-la ao vivo (no Mistura Fina do
  Rio, no show do não menos talentosésimo Chico Pinheiro - certamente, uma das
  cinco maiores alegrias que a MPB me proporcionou nos últimos dez anos),
  fiquei emocionado com o CD. Bonito, bem-cuidado, incorporando o charme da
  faixa interativa que permite baixas outras duas e lindas músicas pela web
  etc. O que ela vai fazer com o talento que seus pais lhe concederam, só ela
  pode saber, junto com quem ela acredita que possa lhe ajudar a dirigir sua
  carreira.
  Só que Maria Rita é filha da (na minha opinião), maior cantora do Brasil em
  todos os tempos. Quanto mais ouço a fieira de cantoras brasileiras que
  batalham no mercado, mais me convenço que estão há anos-luz de Elis Regina.
  Só que Maria Rita, talvez por talento geneticamente transmitido (o pai
  também contribuiu muito, porque é muito competente e talentoso, pianista
  como poucos), canta pra burro, divide e respira feito gente grande, está
  pronta para decolar e, quem sabe, se igualar à mãe.
  Na vida, é preciso mais que talento pra dar certo. Maria Rita não é a filha
  da Elis. É Maria Rita Mariano, queiramos ou não. Já mostrou personalidade
  para fazer as coisas do seu jeito. "Ah, mas ela canta como a Elis, tem os
  trejeitos da Elis..." Ela não poderia era ter os trejeitos da minha santa
  mãezinha, já que - infelizmente - não é minha irmã.
  O resto é uma bobajada sem limites e inexplicável, já que ela não nos fez
  nada demais, não ofendeu ninguém, não se apropriou de espaço de outrem, não
  roubou, não matou, não usurpou. Canta pra cacête, graças aos bons e santos
  Deuses da Música, que nos recompensaram pela morte brutal e inútil, embora
  previsível, da maior cantora brasileira de todos os tempos.
  Saudações de Vila Isabel,
  Cesar Oliveira
  Novo e-mail: cesar52@superig.com.br
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