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Re: Samba em cool jazz

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Alberto R. Cavalcanti (arcav_at_brturbo.com)
Data: Ter 16 Set 2003 - 02:42:13 BRT

Olá, Fabio

Bom questionamento o seu. Rende bem. Tipo bola rolando macia na entrada da
área.

O Toledo já apresentou uma argumentação bastante desenvolvida sobre o
tópico, mas é assunto irresistível, de modo que, mesmo apenas chovendo no
molhado, vou arriscar minha colher de pau.

A impressão que eu tenho é que nós somos muito marcados pelo ensino da
geografia, na tenra infância-e-adolescência.

A gente olha aqueles mapas no atlas do Padre Geraldo Pauwels e aprende
embevecido que, numa determinada linha, termina o Brasil e começa, por
exemplo, a Argentina. A impressão é duradoura. E aí a gente cresce com essa
impressão de que alguma espécie de ordem divina ("histórica" tem o mesmo
valor de "divina", pois num e noutro caso não nos é dado alterar o que está
disposto) impõe tal separação.

Aí, quando Herivelto compõe "Carlos Gardel", o que é? (En passant, acho um
primor aquela gravação do Peri Ribeiro no disco Funarte/Atração, com
acompanhamento de uma formação instrumental chorística.) Música argentina? E
o "Tango do Covil", do Chico?

Por essas e outras, mesmo antes da "globalização", penso que nas coisas da
cultura não é bem assim. Há mais porosidade que barreira de aço. O choro,
por exemplo, esse jeito de tocar inventado no Rio de Janeiro, se utilizou de
ritmos "brasileiros" como a valsa, a polca, o schottisch, já não falando da
habanera. O que dizer das polcas e mazurcas do Gonzagão?

Pi-pi-ri-pão
Pi-pi-ri-pão
qui mazurquinha
qui compasso bão!

Será que um polonês se reconheceria aí? Não é "tipicamente brasileiro" e até
"de raiz"? Uma raiz fincada lá na Polônia do séc. XVI, que, para chegar
aqui, fez estágio en France. Fez igual às Morenas do Grotão.

O séc. XX foi, para nós, norte-americano. Desde os anos 1920 eles
suplantaram os ingleses no financiamento ao Brasil. Dominaram o pedaço.
Escovamos os dentes com pasta e escova americanos, fazemos a barba com
lâmina americana, passamos no sovaco o sabonete americano, o refrigerante
que mais consumimos é americano, o chip dos nossos computadores é americano,
o programa que estamos usando agora para nos comunicarmos é americano... E
aí, quando chega na hora de constatar a presença, um pouco por toda a parte,
inclusive na música brasileira, de elementos absorvidos de uma das melhores
contribuições dos gringos, que foi o jazz, a gente torce o nariz? Cake é
isso, irmão? [emoticom] Aliás, "irmão" não: bródi.[emoticom again]

Severino Araújo, K-Ximbinho, Moacir Santos, Paulo Moura, todos assumiram sua
"influência do jazz". E, agora, o melhor: já vi depoimentos insuspeitos de
vários músicos, inclusive Severo do Acordeon, dizendo que Jackson do
Pandeiro foi o que foi porque "sabia jazz". E que foi esse "saber jazz",
aprendido na Orquestra Tabajara, que lhe permitiu ser "a maior sanfona de
boca do Brasil".

Isto é, empregando um recurso típico da estética jazzística, em que cantores
aspiram a soar como instrumentos e instrumentistas tocam tendo no ouvido de
dentro um instrumento (uma voz) diferente daquele que têm nas mãos, Jackson
cantava nasalando (e dividindo) como se fosse emulado por uma sanfona.

Complicado, não?

Linhais, esse apelido de "Jackson", inspirado em personagem de filme
americano de caubói, sei não... Não ficaria melhor Joca do Pandeiro?

Agora, me parece evidente que, numa faixa que vai de 8 a 80, alguns se
propõem a ser os mais "puros" (típicos?), os que "resistem". São muito
importantes. Naquela escala brechtiana, eu diria que entre estes há um maior
número de "indispensáveis". Pois a relação com a cultura exportada pelo
império tem uma dimensão de luta. Sobretudo a exportação massiva, que não
inclui o jazz.

Outros negociam, entram em acordo, fazem um meio-termo, puxando mais pra cá
ou cedendo mais pra lá. Muitos destes também me parecem importantes. Ajudam
num processo de "respiração" da cultura nacional, que, se já não fosse
necessário, desconfio que no mínimo seria impossível de evitar.

Outros vão mais longe, e até tentam fazer música estrangeira. Podem chegar a
ser tão bem sucedidos em seu projeto ("Feelings"), inda mais assumindo
pseudos anglófonos ("Morris Albert"), que eu não conseguiria dizer que o que
fazem é brasileiro. É como se o cara, mais que fazer música à americana,
quisesse "ser" americano. E, portanto, tem escassa ou nenhuma significação
para a cultura no Brasil, a não ser como um curioso testemunho sobre os
limites do possível.

Talvez esse seja o traço realmente distintivo: o que o cara quer "ser"? No
tempo do grande sucesso de Sérgio Mendes, alguns críticos disseram que ele
fazia música americana. Eu entendo que não, que ele fazia uma fusão, na qual
o elemento brasileiro, Sérgio Mendes style, predominava. E penso que ele
queria ser (e ser percebido como) brasileiro. Se não, ele próprio mudava de
nome, o conjunto dele não se chamava Brasil (ou seria Brazil?) e o
repertório não seria à base de Edu Lobo, Dori Caymmi, João Donato e tal. Se
não, não gravava faixas cantadas em português, esse código secreto nos EUA
dos anos 60 (talvez ainda hoje).

Uma curiosidade, para entortar cabeças: no folheto que acompanha o quádruplo
de Stan Getz, "The Bossa Nova Years", se diz que ele veio ao Brasil pela
primeira vez em 1965, quando já não estava mais gravando bossa nova. E que,
aqui estando, não tocou bossa nova. "I never went there for bossa nova; when
I go to Brazil, I play jazz music. Would you go to the source and play your
version of it?"

Para complicar mais: a obra de El Greco, toda (ou , pelo menos, a que é
considerada) feita na Espanha, por encomenda da Igreja da Espanha ou do Rei,
tornou-se exemplo de arte espanhola, entranhada de catolicismo
contra-reformista espanhol? Ou seria arte... grega?

Abraço

Alberto
de Brasília, DF

P.S. O estrogonofe aqui de casa é tipicamente brasileiro.

Em Monday, September 15, 2003 2:21 PM, Fabio Padilha perguntou:

Isso aí é samba, isso é música brasileira ?

Deixa eu ver se estou entendo bem, entãpo.

O disco do Henrique Cazes (Beatles no Choro) pode ser classificado como
Rock Inglês, certo?

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