Clique para a página principal

Lá vem Gil: "Agora tenho muito o que dizer" (cont...)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
 Página principal » Tribuna Livre » Arquivo das mensagens » Indice mensal
Nova mensagem Responder Mensagens por data Mensagens por discussão Mensagens por assunto Mensagens por autor

Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Sáb 13 Set 2003 - 18:17:30 BRT

Lá vem Gil: "Agora tenho muito o que dizer" (cont...)

http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/09/13/cad034.html

"Pornochanchada também vale", diz ministro

Gil fala de cinema, anuncia a construção de 20 centros culturais e sonha
conseguir 1% para a cultura ainda em 2004

JOTABÊ MEDEIROS

À beira de uma licença de um mês, para cumprir uma agenda de compromissos
nos Estados Unidos e Europa - vai cantar nos jardins da ONU, em Nova York -,
o ministro Gil falou ao Estado por quase duas horas.

Falou em planos para o futuro, o que dá a entender que está à vontade no
ministério. De vez em quando, dobrava as pernas na poltrona, como numa
posição de ioga, relaxado. Gil abordou os mais variados assuntos. Segundo
ele, o ministério deve atentar para questões universais, a tecnologia, o
software livre, o fair use (copyright livre). "Como é que o ente cultural
estatal, seja ele ministério, secretaria, fórum, convenção internacional,
vai ficar fora dessas discussões? Nós somos a própria discussão, o próprio
corpo conceitual novo. Deixar de fora é discutir o glacê do bolo. E o ovo e
a farinha?".

Estado - O sr. vem de um despacho com o presidente Lula. Na agenda, o que o
sr. discutiu com ele?

Gilberto Gil - Tudo. Hoje, nós discutimos a complementação da nossa reforma
(do MinC), que está sendo implantada. Acertando o aumento do pessoal do
ministério. Falamos sobre as bases de apoio à cultura, as Casas de Cultura
nas periferias, que é um projeto caro a ele. Estamos na dependência de um
parecer do Tribunal de Contas da União, para a utilização do equipamento
cultural das casas. Vão ser construídas 20 casas, com projeto do arquiteto
Lelé (João Filgueiras Lima). Temos já dois terrenos localizados no Rio,
cinco em São Paulo, um no Rio Grande do Sul, um na Bahia, outro em
Pernambuco. Serão 20 iniciais, depois mais 30, numa segunda fase. São 45
dias para construção, com a tecnologia de concreto armado do Lelé, e 2 a 3
mil metros quadrados de área construída. Os recursos vêm da Petrobrás, da
ordem de R$ 20 milhões iniciais, para as primeiras unidades.

Estado - O sr. discutiu com o presidente o fato de que a reforma tributária
pode acabar com as leis de incentivo estaduais?

Gil - A posição do Ministério da Fazenda, da própria presidência e nossa é
de que, basicamente, a cultura não deveria ser afetada pelo desaparecimento
dos incentivos. E nossa expectativa é que, no senado, prevaleça essa
decisão. Na Câmara, já houve uma concessão (de uma sobrevida de 3 anos para
as leis), mas ainda está previsto o desaparecimento das leis. No Senado,
vamos buscar a manutenção dos incentivos. O presidente acha que a cultura
deve ser tratada diferentemente, ela não deve ser atingida pelo mecanismo
indistinto da reforma; Os incentivos para a cultura não implicam em guerra
fiscal, portanto não devem ser tratados como os outros.

Estado - Após 9 meses, o sr. crê que foi aceito pelo governo? Inicialmente,
pensava-se que seria sempre um corpo estranho no governo, que correria por
fora. O sr. já tem aliados no governo?

Gil - Tenho. Da presidência da República aos ministérios do Turismo, das
Relações Exteriores, Planejamento. Todos trabalham com muita sintonia. Vamos
agora intensificar nossa aproximação com o Ministério do Meio Ambiente, por
uma série de razões. Tanto pelo tema quanto pela ministra Marina Silva.
Temos uma relação muito boa com o Mares Guia, temos uma agenda, que já está
sendo promovida, que implica a questão dos projetos em comum, e destaca a
importância do patrimônio histórico e a diversidade cultural no turismo. As
pessoas vão visitar os lugares por motivos culturais: vão a Paris pelo Museu
do Louvre, à Bahia por causa do Pelourinho, a Foz do Iguaçú por causa do
patrimônio natural. Evidentemente que esses ministérios devem trabalhar
juntos. Com o ministério da Comunicação, agora, por conta da política de
inclusão digital, a ampliação do acesso à internet, rádios comunitárias.

Estado - O sr. assumiu com uma bandeira ambiciosa, de dar 1% do orçamento da
união para a área da cultura...

Gil - Já fomos para 0,4%, que é quase metade. E podemos até chegar lá em
2004, com as emendas parlamentares. Se não der esse ano, pelo menos no ano
que vem. Agora, as casas, Senado e Câmara, têm bancadas da cultura, o que
torna mais fácil essa negociação.

Estado - E o presidente? Acha razoável dar 1% para a cultura?

Gil - Todo mundo acha. Mas há uma conjuntura que é preciso examinar. A gente
tem uma política econômica que exige aperto de cintos, há uma meta de
superávit. O aperto orçamentário decorre basicamente da questão da formação
de superávit.

Estado - Só recentemente, o Estado do Piauí fez o seu primeiro
longa-metragem. Como administrar realidades culturais tão diferentes no
Brasil?

Gil - Nós vamos ter um Sistema Nacional de Cultura legalmente criado, que,
quando for implantado vai cuidar de coisas desse tipo. Vai cuidar da
articulação entre os Estados, entre as secretarias de Cultura dos Estados,
implantação dos conselhos estaduais de cultura, dos municípios, o incentivo
à criação dos conselhos municipais. Não será uma legislação coibitiva, vai
funcionar com flexibilidade, com convencimento. E não com rigidez e
imposição. Pelo fato que cidades como Antonina, Morretes e Paranaguá
(cidades litorâneas históricas no Paraná) precisam estar articuladas, porque
uma não se sustenta sem a outra, têm meios-ambientes comuns, o caminho
cultural é comum. Então, a formação automática de consorciamentos municipais
é um caminho obrigatório.

Estado - Os órgãos culturais hoje estão se capacitando para reconhecer as
questões globais. Mas seriam capazes de reconhecer hoje, por exemplo, um
artista como Arthur Bispo do Rosário? Os artistas que criam à margem, que
fazem trabalhos longe dos mercados, têm como ser avistados pela cultura
oficial?

Gil - Ainda anteontem, por exemplo, lá no Rio, um setor manifestou muito
claramente isso, reinvindicando a atenção pelo Estado. O setor da música de
vanguarda. E aí, a gente tem um problema. O ente cultural público precisa
ter uma atenção específica para esse setor, que é de excelência por um lado
e é desprotegido por outro. As modificações que vamos fazer na Lei Rouanet e
na Lei do Audiovisual vão trazer a área privada para investir. Vamos fazer o
chamamento, criando as bases legais para isso . O presidente Lula hoje mesmo
falou sobre isso, ele reiterou que quer a convocação da iniciativa privada.

Estado - O sr. anunciou a produção de cerca de 100 filmes ao ano, até o
final do seu governo, citando a meta histórica do tempo da Embrafilme. Mas,
naquele tempo, pelo menos 70% daqueles filmes eram pornochanchadas.

Gil - E daí? Pornochanchada também vale. Também é filme, também ajuda a
desenvolver a indústria do cinema, também dá emprego. Outro dia eu tive de
dizer numa reunião uma heresia: música ruim também é cultura. Tem um que
acha que tal tipo de música é ruim, outro que tal tipo de teatro é ruim, que
tal tipo de cinema é ruim. E aí? Para uns, o funk carioca não é cultura. Mas
como o Ministério da Cultura pode dizer que o funk carioca, que a Éguinha
Pocotó não é cultura?

Estado - Mas não se deve separar o joio do trigo? Por que investir R$ 6
milhões no filme Xuxa e Os Duendes 2 e deixar de financiar outras produções
importantes?

Gil - Mas aí é uma questão de política cultural. É um assunto do ministério.
É tendo políticas culturais que se pode capacitar o ministério a ter até um
papel de intervenção, de direcionamento nessa questão. Se o MinC tem uma
política de apoiar pequenas produções, deve priorizar esses recursos.

Estado - E a grande produção de cinema, a produção cara, os Carandirus? O
MinC deve continuar investindo maciçamente nessas produções?

Gil - Não pode deixar de incentivar, recomendar, fomentar, seja lá o que
for. Se um filme de R$ 6 milhões foi atendido, e 10 filmes pequenos deixaram
de ser atendidos, o que resolve isso são políticas diferenciadas, que
atendam a ambas as coisas. O fato de não existir política é que provoca essa
situação.

Estado - E o livro? Deve existir também uma política industrial para o
livro, que tem um setor mais organizado?

Gil - O livro no Brasil é muito caro. Os editores estão ampliando as
tiragens, mas ainda é muito pouco. Estivemos com uma autoridade chinesa, que
tem status de vice-ministro da Cultura, e ele quase caiu de costa quando
dissemos que a tiragem média de um livro no Brasil é de 5 mil exemplares. É
por isso que o livro é tão caro. Outra questão séria no Brasil é a da
formação de público, formação de leitores. A morte do Wally fez com que
ficássemos em dificuldades, mas agora, o Pedro Corrêa (do Lago, presidente
da Biblioteca Nacional, novo responsável pela política nacional do livro)
vai reativar com força o processo.

Estado - Nas ruas de Brasília, há uma campanha dos produtores de discos que
diz assim: "Pirataria é crime e gera desemprego". O que o sr. acha da
questão da pirataria?

Gil - A pirataria gera desemprego formal por um lado e emprego informal por
outro. E essas são questões que devem ser enfrentadas. Eu estive com o
conjunto dos executivos da indústria, em Miami, na entrega do Grammy Latino.
E eles aplaudiram entrevista minha publicada no Miami Herald, onde eu
colocava a pirataria não só como um problema, mas como um desafio. As
gravadoras têm folhas de pagamento monumentais. Há a questão tecnológica. No
dia seguinte, eu estava lendo o New York Times, e uma das majors
internacionais, a Universal Records, anunciou sua decisão de baixar 30% no
preço dos seus discos. Aí é que está. Unilateralmente, a líder mundial do
setor abaixou seus preços, decidindo que uma das políticas industriais de
combate à pirataria era a redução do preço. É complexo. Não é só law
enforcement (constrangimento legal), mais lei, mais polícia. Não adianta
mandar prender os garotos, como fizeram nos Estados Unidos, por trocar
música na internet. Até que ponto essa leitura da legalidade é sustentável?
Vai mudar o marco legal. Como músico, eu mesmo estou negociando com minha
gravadora licença para liberar cópias de canções minhas, liberar para o fair
use (uso livre de copyright).

Estado - O sr. é um ministro negro, e chegou ao ministério sendo visto
também como um músico, uma figura exótica. Sentiu-se vítima de preconceito
nesses 9 meses de governo?

Gil - Não (risos). Hoje eu sou alforriado, sou um escravo alforriado. Minha
trajetória de inserção pessoal me faz ser visto de maneira diferente.

_________________________________________________________________
MSN Hotmail, o maior webmail do Brasil. http://www.hotmail.com

_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta

Nova mensagem Responder Mensagens por data Mensagens por discussão Mensagens por assunto Mensagens por autor

Este arquivo foi gerado por hypermail 2.1.4 : Sáb 13 Set 2003 - 18:17:42 BRT