Clique para a página principal

Re: Re:__Letra_de_música

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
 Página principal » Tribuna Livre » Arquivo das mensagens » Indice mensal
Nova mensagem Responder Mensagens por data Mensagens por discussão Mensagens por assunto Mensagens por autor

Autor: Alberto R. Cavalcanti (arcav_at_brturbo.com)
Data: Sex 12 Set 2003 - 01:34:06 BRT

Salve, Daniel

Você sabe aquele tipo de proposição que começa assim: "há dois tipos de
pessoas nesse mundo, as que (...) e as que (...) ?

Nesse diapasão, tenho percebido que, confrontadas com dois objetos
determinados, há (pelo menos) dois tipos de reação: (1) há os que têm mais
olhos para ver as diferenças entre os objetos e (2) os que enxergam antes as
semelhanças entre eles.

Acho que, nesta nossa discussão, chegamos a um tipo de impasse nessa linha.
V. tem um admirável poder de síntese (que eu não tenho). Concordo
inteiramente com o seu item 4. Ele chama a atenção para o tipo de fenômeno
que me faz recuar da tentativa de estabelecer distinções muito firmes. Tenho
descoberto que o mundo apresenta mais celacantos e ornitorrincos do que já
supôs a minha vã filosofia. Os cantadores nordestinos, sobre os quais v.
interroga o Toledo, são um pouco celacantos, v. não acha? "Mulher nova,
bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor" não parece letra de
música.

Por outro lado, eu não queria ser prescritivo (usando os "deve"). Fui agora
aos dicionários comuns (Aurélio, Houaiss) para ver se os verbetes ajudavam
e, no meu caso, pioraram. Me fizeram lembrar até dos poemas sinfônicos
(Lizst e outros românticos tardios adoravam). Se eu tentasse escrever um
pentálogo, embora sem o seu talento, ficaria mais ou menos assim:

1) Letra de música pode equiparar-se a poemas literários, embora isso não
seja comum nem costume ser a intenção de seus autores;

2) Poemas literários não se equiparam a letras de músicas populares mas,
embora não seja comum, às vezes servem tanto quanto se fôssem;

3) Embora quase sempre seja fácil distinguir letra de música e poema
literário, possíveis semelhanças formais de uns e outros às vezes apagam as
diferenças e elas virtualmente desaparecem;

4) Seres anfíbios, como Vinicius, Torquato, Capinam, Leminski e outros
vieram ao mundo para confundir, não para explicar;

5) Chico Buarque sabe o que compõe e o que canta.

Em adendo a esta última conclusão, poderia acrescentar, com prejuízo para a
já prejudicada concisão: "...mas não pode estabelecer uma distinção que,
mesmo sendo válida para o julgamento que faz de sua própria obra (e que está
longe de ser o único possível), seja necessariamente válida para as obras de
todos os outros".

Você possivelmente estranhará uma aparente incongruência entre o item 1 e o
2. É que eu acho que letras de música podem constituir um gênero particular
dentro do universo da poesia, portanto, a letra de música está contida pela
poesia, que é mais ampla e variada.

Penso também que v. tem razão em gentilmente dizer que não pretende encerrar
a conversa. Mas, quero expressar o receio de que, do lado de cá, com meus
relambórios, esteja cansando os tribunautas. A discussão rendeu e, em certa
medida, agradou, haja vista a quantidade de intervenções que recebeu de
tantas outras pessoas. E ainda ficamos sabendo de Catulo, que eu só conhecia
de ouvir falar.

Sugiro que v. dê um fecho de ouro -- concordando, discordando... ou não! --
e partamos para outras.

Abração

Alberto
de Brasília, DF

Em Thursday, September 11, 2003 11:59 AM, Daniel propôs

> Parece que estamos chegando a algumas conclusões, não?
> 1) Letra de música pode (deve!) ser poética, mas não é poema.
> 2) Poema pode (não deve!) ser musicado, mas não é letra de música.
> 3) A semelhança formal de uns e outros podem nos levar ao equívoco, muitas
> vezes.
> 4) Seres anfíbios, como Vinicius, Torquato, Capinam, Leminski e outros
> vieram ao mundo para confundir, não para explicar.
> 5) Chico Buarque sabe o que diz...
> É isso? Não estou encerrando a conversa, só apontando algumas conclusões.
> Este papo vai longe!
>
> Fernando, estou fazendo uma experiência baseada em sua valiosa
interpretação
> antropológica sobre o início da canção, os cantos de trabalho, etc. Em vez
> de me remeter a 5 mil anos atrás, estou ouvindo o Cântico dos Escravos,
com
> Clementina, Geraldo Filme e Tia Doca. Num universo mais próximo (Minas
> Gerais do século XVIII e XIX) como se aplicam estas idéias?
> É um grupo que não faz uso da palavra escrita, mas cria versos cantados,
> repetidos de pai para filho.
> E me pintou uma dúvida cabreira: os cantadores de cordel são poetas ou
> letristas?
> Se o assunto fugir muito do universo desta lista, podemos continuar
> privadamente, mas juro que vou tentar buscar exemplos próximos do
> samba-choro.

_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta

Nova mensagem Responder Mensagens por data Mensagens por discussão Mensagens por assunto Mensagens por autor

Este arquivo foi gerado por hypermail 2.1.4 : Sex 12 Set 2003 - 01:29:48 BRT