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Re: Letra de música

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Fernando Toledo (fernandotoledo_at_hobeco.net)
Data: Qua 10 Set 2003 - 11:08:53 BRT

Sampo, agitando os longos braços ante os olhares comovido de Vainamoinen:
>
> Não é uma tese minha, mas uma grande dúvida, motivada pela declaração do
> Chico Buarque de que "letra de música não é poesia". Estou fazendo uma
> investigação aberta, com a ajuda de vocês, procurando pontos de
consonância
> e dissonância. Por enquanto, estou concordando com o compositor, sobre a
> "origem e intenção". Mas me atrapalho com a aparência, como qualquer
cidadão
> comum. Não sei distinguir uma pérola natural de uma artificial...

Eu:
Finalmente pude sentar meus glúteos à cadeira e ler as mensagens sobre este
assunto que me fascina.
Os argumentos de ambos (Daniel e Alberto) fazem lógica. Gostaria apenas de
acrescentar algo:
Um poema tem existência autônoma. Os versos, o encadeamento da palavra, os
tropos, têm a obrigação de carregar toda a significação pretendida pelo
autor. Grandes poemas operam com imagística, ritmo, aliterações,
profundidade no mergulho do tema. Única e exclusivamente por meio de
linguagem escrita, que, no caso de ser declamada, o deve ser obedecendo ao
estabelecido pelos grafemas utilizados (vírgulas, aspas, travessões, pontos
os mais diversos).
Desta forma, pode-se dizer que é a maneira da linguagem escrita conter,
intrínseca, sua própria música (ponto fundamental para compreender-se a
dicotomia "poema literário/ letra de música").
Quando se acrescenta, a um grande poema, uma melodia externa ao mesmo, das
duas uma:
- Pode-se aplicar uma melodia que faça uma espécie de contraponto ao
significado do poema, criando-se desta maneira um tipo de tensão entre os
elementos, advindo daí uma nova obra, a síntese melodia/poema, que é uma
terceira coisa, não tendo, em suma, o significado original pretendido pelo
autor do poema original. Não me recordo de nenhum resultado positivo de uma
tentativa do gênero.
- Pode-se obter um efeito rebarbativo, no caso do poema ser realmente um
grande poema, e não uma letra de música disfarçada em poema. Explicarei
melhor: um poema, para assim o ser considerado, deve ser um produto fechado,
conter em si todos os elementos necessários à obtenção de um determinado
efeito. Quando a este produto fechado se acrescentam novos elementos,
contudo com a mesma intenção de efeito, obter-se-á uma produto pleonástico,
com excesso de signos. Talvez por isso a maioria dos poemas musicados soe
"pesada". Mais ou menos como usar-se um rolo compressor para esmagar uma
borboleta, certo?
A origem da poesia linguística remonta aos velhos cânticos de trabalho,
provavelmente um dos primeiros métodos utilizados pelo homem para
descobrir-se como tal, a se tomar como real a assertiva de que o homem é um
animal que trabalha. O trabalho, como já afirmou Marx, é a forma de
atividade peculiar ao homem, pois, para ser realizado, não pode prescindir
de um propósito. Resulta na materialização de algo que antes somente existia
como ideal, ou seja, na imaginação do homem. Mas tergiverso.
Bem, os cânticos de trabalho, mecanismo que ordenava uma coletividade para
se obter um propósito comum, necessitava de signos que pudessem ser
apreendidos por todos os membros da coletividade. Somente desta forma
poderiam operar em conjunto, multiplicando sua força muscular e obtendo
resultados que não conseguiriam em separado. Os cânticos de trabalho,
ordenação de linguagem de forma rítmica, prenunciavam a música e a poesia,
mas, apesar de se constituírem, em última instância, como música, não
poderiam ser classificados como poesia literária, pois só funcionavam a
contento, ou seja, cumpriam seu propósito, quando entoados como música. As
letras ainda não possuíam uma autonomia que contivesse um propósito próprio,
nem esse propósito, à época, era pretendido. O que se pretendia era ordenar
força muscular, não teorizar sobre os resultados da mesma:-).
Bem, acho que o mote é esse: o poema literário contém todos os signos
necessários à sua apreensaão e compreensão. A letra de música não (ih,
rimou - alguém se habilita a musicar as últimas frases?:-)).
Um abraço,
Fernando Toledo

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