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Paulinho no Cine Planalto

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Cesar Oliveira (cesar52_at_ig.com.br)
Data: Ter 09 Set 2003 - 15:06:41 BRT

Sambistas & Chorões:
No Rio, o filme do Paulinho também só passou em cinemas "alternativos"...
deixemos o Presidente fora disso, que ele não tem nada a ver com isso..
Saudações de Vila Isabel,
Cesar Oliveira

----- Original Message -----
From: "helenice castro" <helenicecastro@yahoo.com.br>
To: "Fábio Liberal" <fabio@samba-choro.com.br>; <tribuna@samba-choro.com.br>
Sent: Tuesday, September 09, 2003 2:54 PM
Subject: Re: [S-C] Zicartola, 9 de setembro de 1963

> Fábio Liberal falou:
>
> "enquanto nesta capital só o presidente vê o filme sobre Paulinho da
> Viola..."
>
> Pois é Fábio, enquanto isso, nós, pobres sambólatras mortais, ficamos aqui
a ver navios....
> Alguém dessa tribuna tem notícias sobre a exibição do filme sobre a vida
de Paulinho da Viola aqui em Brasília? Será que vai ser necessário sair
daqui para assistí-lo?
>
> Fábio Liberal <fabio@samba-choro.com.br> wrote:
> Amigos,
> enquanto nesta capital só o presidente vê o filme sobre Paulinho da Viola,
estou lendo "Paulinho da Viola, sambista e chorão", de João Máximo (coleção
Perfis do Rio, Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2002, lançamento anunciado
neste sítio em http://www.samba-choro.com.br/noticias/arquivo/5400) e
deparei-me com a informação de que o lendário Zicartola começou a funcionar
no dia 9 de setembro de 1963, ou seja, há exatos quarenta anos.
>
> Como não posso passar na frente do velho sobrado da Rua da Carioca e
aproveitar para tomar um chopp (ou vários) celebrativo no Bar Luis,
transcrevo o trecho do livro, que trata bem sucintamente do sumiço e
reaparecimento de Cartola, a gênese do restaurante mais importante da música
brasileira da segunda metade do século passado e, de quebra, o nascimento
para o mundo artístico de Paulinho da Viola (com a sugestão nada
surpreendente de que seu caminho não começou na casa de Cartola à toa).
>
> Abraços a todos,
> Fábio Liberal
>
> "(...) Zicartola, restaurante que Angenor de Oliveira, o Cartola,
iluminado compositor, e sua mulher Zica, exímia cozinheira, abriram no
sobrado da Rua da Carioca, 53. O restaurante foi uma espécie de extensão das
reuniões que se faziam em outro local, o segundo andar da Rua dos Andradas,
81, onde funcionava a Associação das Escolas de Samba e onde Cartola e Zica
viveram por algum tempo, ele como vigia de todo o prédio. Cartola - depois
de longo sumiço que levara quase todo mundo a supô-lo morto - fora
redescoberto por Sérgio Porto enquanto lavava carros em Copacabana. Para
Sérgio, aquele negro magro, de nariz estranho, tumoroso, era o personagem
principal das histórias que o tio Lúcio Rangel lhe contava, ilustradas por
sambas admiráveis. Redescobrir o 'falecido Cartola' foi como dar vida a uma
lenda. E Sérgio, cronista mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, teria
todo o direito de gabar-se disso até o fim de seus dias.
>
> O que se passou na Rua dos Andradas foi assim como se o Brasil quisesse
recuperar o tempo perdido sem a música de Cartola. Pois era justamente para
ver e ouvir Cartola que iam lá incontáveis sambistas, de início os mais
ligados à tradição, como Zé Kéti e o jovem Élton [Medeiros]. (...) Zé Kéti
aproximou-se de Cartola porque este tinha uma idéia: organizar um conjunto
de samba a ser batizado de A Voz do Morro (...) O (...) conjunto - formado
entre outros por Cartola, Nélson Cavaquinho, Jair do Cavaquinho, Nuno
Veloso, Zé Kéti e o jovem Élton - não passou da idéia. O que não impediu que
aquelas reuniões musicais ganhassem fama. Em pouco eram prestigiadas não só
por representantes da bossa nova, como Carlos Lyra e Nélson Lins e Barros,
mas por gente de outras cidades, outros estados, fazendeiro fretando avião a
fim de levar seu povo para conhecer Cartola. Resultado: o sobrado ficou
pequeno para tanta gente. Por isso Eugênio Agostini, um empresário louco por
samba, deu a Zica a i
> déia do restaurante. Ele e os primos Renato e Fábio seriam seus sócios,
naturalmente bancando os gastos iniciais. Os pratos dela e os sambas de
Cartola haveriam de fazer o resto. Que ela mesma procurasse o lugar para a
nova casa. Andou, andou e achou o sobrado da Rua da Carioca.
>
> O Zicartola duraria pouco, apenas 20 meses. Mas marcaria de forma profunda
a vida cultural da cidade, ou mesmo do país, na música, no teatro, na poesia
e nas idéias que eram discutidas nas noites das quartas e sextas-feiras, às
mesas distribuídas pelo pequeno restaurante. Começou a funcionar em 9 de
setembro de 1963, mas só em 18 de outubro foi considerado pronto para a
inauguração oficial. Pratos e sambas não seriam o bastante para compensar os
prejuízos causados pelos muitos amigos que chegavam, ouviam música, comiam,
bebiam e penduravam as contas para nunca mais (sem falar nos que andaram
metendo a mão na contabilidade de Cartola, grande artista, péssimo
negociante). Mas o restaurante seria, durante esse tempo, um verdadeiro
templo. (...) Ali professavam sua fé no samba tradicional Ismael Silva,
Nélson Cavaquinho, Carlos Cachaça, bambas da Mangueira, da Portela, do
Império Serrano, do Salgueiro, de toda parte.
>
> Eram dois shows, sempre nas noites de quartas e sextas. No primeiro,
aqueles bambas se apresentavam sob a direção musical de Zé Kéti. No segundo,
brilhavam Cartola e seu violão. Seguia-se o grand finale, no qual um
convidado ilustre recebia a Ordem da Cartola Dourada, criada por Hermínio
[Bello de Carvalho]. (...)
>
> Foi Hermínio quem levou Paulo César ao Zicartola. Um fato importante na
vida do então bancário, pois ali ele ficou conhecendo sambistas que, em sua
timidez, eram entidades inatingíveis. Mais importante: passava a ser um
deles. Desde sua estréia no primeiro show da noite, cantando sambas dos
outros, causou forte impressão. Inclusive em Cartola, de quem Paulo César se
aproximou humilde, cheio de cerimônia. O encontro dos dois é historicamente
significativo, verdadeira passagem de bastão, sem que no entanto se tivesse
consciência disso. Muito do que Paulo César estava por fazer - manter a
tradição, sem maculá-la, requintar o samba sem deformá-lo - Cartola já vinha
fazendo. Não fossem ambos tão tímidos, tão reservados, e seria inevitável se
tornarem parceiros. Mas Zé Kéti também se encantou com o som do violão de
Paulo César, sua musicalidade, sua voz terna, afinada, que combinava o
timbre de autêntico sambista de escola com a técnica precisa de crooner
profissional. O diretor mu
> sical do restaurante logo anteviu no moço de 20 anos um novo bamba.
Copmentou isso com o jornalista Sérgio Cabral, que na época assinava, com
José Ramos Tinhorão, uma seção de música popular no Jornal do Brasil e era
mestre de cerimônias no Zicartola. Sérgio concordava. Mas achava que,
definitivamente, Paulo César não era nome de sambista.
>
> - Que tal Paulo da Viola? - indagou Zé Kéti, certamente inspirado em Mano
Décio da Viola, veterano compositor do Império Serrano.
>
> - Paulinho... Paulinho da Viola é melhor - completou Sérgio.
>
> E assim Paulo César Baptista de Faria foi rebatizado para todo o sempre."
>
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