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Re: Re: Gosto e Poesia

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Alberto R. Cavalcanti (arcav_at_brturbo.com)
Data: Ter 09 Set 2003 - 03:17:08 BRT

Caro Daniel

Por algum motivo estranho (miopia minha? descompasso de servidores?) ou eu
não vi essa sua mensagem de sexta-feira à noite ou ela só chegou hoje. Acho
que é mais a segunda hipótese, pois criei o título "Gosto e Poesia" numa
mensagem do dia 6, sábado, e, a não ser que o superhomem da canção fizesse o
mundo girar ao contrário, seria difícil você respondê-la na véspera. O fato
é que só agora vejo a sua mensagem que passo a responder, con mucho gusto.

Defendo que música popular é (ou pode ser, dependendo de como seja feita)
arte. Que literatura de ficção e poesia também são arte. Que as letras das
músicas populares ocupam, no vasto território das artes, o bairro contíguo
ao da poesia literária. Não defendo que são exatamente um único e mesmo
bairro. Mas áreas contíguas e contínuas. Não há entre elas um maciço
montanhoso ou um rio encachoeirado, difícil de atravessar. É fronteira seca.
São tão contíguas que não raro fica difícil estabelecer onde está a linha
divisória, porque ela se dissolve. É a densa neblina de que v. fala. Daí
minha idéia de que há um território comum, de interpenetração.

[Haveria aí um espaço para discutirmos a diferença entre o artista e o
artesão. Mas isso vai ficando muito xarope para os companheiros de Tribuna.
Mário de Andrade tem um texto muito interessante sobre essa distinção.]

Não sei em que contexto o Chico declarou que "letra de música não é poesia"
(literária). Mas, quando ele musicou João Cabral e Cecília Meireles, aqueles
poemas não viraram "letra de música"? Deixaram, por isso, de ser "poesia"? E
o que dizer do poema que Gullar fez para o Trenzinho do Caipira? Acho que o
Chico deve ter dito isso para demarcar as diferenças entre os dois
"bairros", que, é inegável, existem. E a necessidade de apontar diferenças
decorre exatamente da semelhança, que indica a contigüidade. Mas que, se
ensancha oportunosa se apresentasse, ele também poderia declarar que letra
de música pode ser poesia e, "menasmente", vice-versa.

A poesia (o poema) é anterior ao papel. Acho que a origem da poesia está
mais para a declamação que para a escrita. Ela começa poesia declamada (daí
a importância da métrica e da rima, para a memorização, num meio cultural
iletrado), continua poesia quando é lançada no pergaminho, papiro ou papel e
pode continuar poesia quando, declamada, se faz acompanhar por uma lira, que
apenas serve de fundo, e mesmo quando, depois, passar a andar junto com a
lira, cantada, sílaba com nota musical.

Se é possível a tese de que a poesia independe do suporte, pasme, há também
a de que ela se descola do texto. Tive em tempos idos um querido professor,
Cyro dos Anjos, que afirmava que "a poesia paira acima do texto". Leio isso
como significando que o texto poético, por certas manobras de composição e
uma espécie de descolamento entre as palavras e os significados que elas
costumam carregar, sem no entanto abandonar os significados originais, opera
um encantamento que é próprio da arte. É como se v. procurasse esse
encantamento nas palavras e não o encontrasse lá, mas ele constinua
existindo, "acima" delas, mas não independente delas.

Quando Aldir diz que "eu sou você que se vai no sumidouro do espelho", isso
não é reportagem, editorial, relatório técnico, ensaio, sentença judicial,
regulamento... por exclusão, ao menos, é poesia. Visto assim como um recorte
isolado, poderia ser classificado como prosa de ficção. Mas, quando v.
recupera o texto inteiro, o ritmo, as aliterações, as figuras de linguagem
todas e, sobretudo, os paradoxos, me dizem que é poesia. Tem o encantamento
que paira acima das palavras. Não é um poema feito para ser lido num livro,
mas poesia feita para ser cantada em cima de melodia.

V. diz que "eventualmente vemos um compositor colocar melodia em um poema (e
vários lieds surgiram desta
forma), mas é sempre uma junção forçada, artificial. Um simulacro de canção,
talvez". Não sei. As canções de Schubert parece que são em geral
consideradas o marco fundamental do lied, obras-primas do gênero, modelo de
perfeição etc. Se não me engano foram escritas em cima de poemas já
existentes. E não são tidas como simulacros de canções. Ao contrário. São
tidas como paradigma.

Na música popular, há parceiros que compõem a quatro mãos, música e letra
saindo juntas (Newton Mendonça e Tom Jobim), há os que primeiro fazem a
música e depois o outro põe a letra, cabendo ou não, conforme o trato, uma
ajeitada aqui e ali para arredondar, como diz o Aldir, comentando a parceria
entre ele e João. E há as parcerias em que a letra surge primeiro, a música
é colocada em cima dela. Há casos em que uma "letra" sobrevive anos e anos
como "poema" (só letra escrita) e depois volta a ser o que talvez seu autor
pretendesse desde o início: letra de música. É o caso de "O Negócio é Amar"
(Dolores, Carlos Lyra).

Houve até caso em que os dois parceiros trabalharam separados, um sem ouvir
o trabalho do outro, e no fim as duas partes (letra de um, música do outro)
foram juntadas. Henrique Cazes conta que foi assim que Pedro Caetano e
Claudionor Cruz compuseram "Nova Ilusão". Usaram uma outra música para
modelo. Um escreveu letra alternativa para aquela música, outro escreveu
música alternativa para aqueles versos, ambos observando rigorosamente a
métrica da canção-modelo. Virou um clássico classudo da nossa música
popular. E, já em início de carreira, proporcionou a Claudionor um namoro e
casamento de 53 anos de duração (até que a vida os separasse), conforme já
foi contado na Tribuna pelo Luis Felipe Lima.

Sem saber fazer letra nem música, acho (palpite puro) que quando a música se
organiza em quadraturas, pôr letra em cima fica menos difícil. Fogo deve ser
quando o fraseado da música é desigual, irregular. Dizem que Vinicius (creio
que v. concordará que se trata de um dos maiores letristas que já houve)
teve extrema dificuldade para pôr letra em "Chega de Saudade". E que aqueles
"pois há menos peixinhos a nadar no mar, do que os beijinhos que eu darei em
sua boca" seriam sintoma do cansaço do poeta, uma espécie de "arrego". O
"Expresso 2222", se não fosse de um Gilberto Gil só, talvez tivesse a mesma
dificuldade. Uma das coisas que se enaltece em "Conversa de Botequim" é o
perfeito casamento da letra com u'a melodia irregular (parece que Vadico fez
a música primeiro e Noel pôs a letra depois).

Nessa linha de idéias, talvez o trabalho de Schubert tenha sido facilitado
pelo fato de os poemas, naquela época, obedecerem a padrões rígidos de
métrica.

E a posição rígida de Guinga, entregando a música pronta ao Aldir e não
admitindo mudar um si bemol, certamente dificultou o trabalho do letrista.
Para resolver essas dificuldades, Aldir, tarimbado ourives do palavreado,
tinha à sua escolha um enorme repertório de soluções possíveis, ainda que
não ideais, no julgamento dele. Suponho que o "fuck you" e o "bate-bronha",
se se encaixam nessa hipótese, foram escolhas conscientes, dentro de um
propósito, conforme a Tatiane Marchesan interpretou ontem.

De fato, se v. começa conhecendo a letra da música nessa condição de letra
de música, fica difícil lê-la como poema, "desmusicalizada". É boa sua
imagem da borboleta alfinetada. Mas, se lhe fosse dado conhecer certas
letras de música apenas impressas, sem saber que são letras, possivelmente
se surpreenderia depois ao saber de sua origem musical.

Eu diria que o que as distingue (poesia literária e letra de música) é mais
a intenção do que a origem (o autor). E que há na poesia literária uma
liberdade de artesanato que, na letra de música, fica muito tolhida. Tentar
musicar "Tabacaria" resultaria num troço muito esquisito, não é? Tem também
a questão da extensão e da temática. A letra da canção popular tem que ser
ligeira, obrigação que a poesia literária não tem. E a poesia tem tanta
liberdade que, na outra ponta da extensão, pode se limitar ao haicai, com
seus três versos, o que creio que excede, em concisão, até o "Bim Bom", do
João Gilberto.

Na anunciada reparceria de João Bosco e Aldir Blanc, pode haver o
arredondamento (casamento mais harmonioso dos fraseados musical e poético)
e, ao mesmo tempo, a manutenção da, assim dita, "dificuldade" das letras do
Aldir. V. tem razão: aguardemos.

Abração

Alberto
de Brasília, DF

Em Friday, September 05, 2003 8:10 PM (?!) Daniel ponderou:

Creio que as notícias sobre o reencontro da dupla Bosco/Blanc vão adiar a
nossa discussão por algum tempo... Vamos ver o que sai desse reencontro: Se
as letras do Aldir continuarem "difíceis", significa que ele evoluiu para um
ponto sem retorno. Se voltarem a ficar "redondas", cantabile, a influência
criativa de João Bosco terá demonstrado seu vigor.

Dentre os inúmeros sub-temas que você levantou, um me parece particularmente
saboroso: o das relações entre música e literatura. Palavras tuas:
"Aí, de fato, está nossa divergência. Embora eu admita que há distinções,
não"vejo uma fronteira nitidamente demarcada entre literatura e letra de
música popular. Defendo que há parcelas de territórios em comum."

Menos que divergências, estamos caminhando em neblina densa. Embora o
próprio Chico Buarque já tenha afirmado que "letra de música não é poesia",
somos tentados a assim considerar. Sobre o papel, ressecadas, as letras de
música parecem poesia: tem versos, métrica, rimas...

O problema principal é que elas nasceram vivas, encadeadas à música, e o
que estamos vendo ali é só um esqueleto, um fóssil. Eventualmente vemos um
compositor colocar melodia em um poema (e vários lieds surgiram desta
forma), mas é sempre uma junção forçada, artificial. Um simulacro de canção,
talvez. Outras vezes, sucede o contrário. Você deve lembrar de vários
exemplos mais ou menos felizes desta "parcela de territórios em comum".
Mas insisto: ler uma letra de música, uma de verdade, como se fosse um
poema, desmusicalizando-a (permita-me o neologismo), é como ver uma
borboleta espetada num alfinete no museu. É bonita, mas está morta. Claro,
há quem goste de bandejas decoradas com borboletas...

Sei que é difícil considerar uma canção algo "vivo", e principalmente
distinguir coisas tão semelhantes como poesia e letra de música. Às vezes eu
me confundo, também. É como ver uma pérola artificial e confundi-la com uma
natural. Parecem iguais, mas não são a mesma coisa. Basicamente, o que as
distingue é a origem e a intenção, não acha?

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