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O Rio do Ruy (nominimo.com.br)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Sonia Palhares Marinho (soniapalhares_at_hotmail.com)
Data: Ter 09 Set 2003 - 02:26:28 BRT

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Por: Paulo Roberto Pires

O Rio do Ruy

09.Set.2003 | Mestre em fazer do Rio um cenário atrevido de seus livros,
paisagem que em “Chega de saudade” ou “O anjo pornográfico” vivia se
insinuando como personagem, Ruy Castro eliminou os intermediários e
transformou a cidade em protagonista. E o fez com pompa e galhofa, dando
nome de chanchada, “Carnaval no fogo”, ao livrinho que sai agora pela
Companhia das Letras e, daqui a pouco, pela Bloomsbury inglesa dentro de “O
escritor e a cidade”, coleção dividida pelas duas editoras. Capa dura e
belíssimas ilustrações de Filipe Jardim, o livro não é guia, história,
reportagem ou ficção – embora tenha um pouco disso tudo. Pois para retratar
esta cidade que desafia conceitos, nada melhor do que recorrer a um gênero
que dizem ter sido inventado por estas bandas, como sapeca ele no subtítulo:
“crônica de uma cidade excitante demais”.

Depois de atravessar uma noite lendo a perambulação maluca por épocas,
lugares e personagens os mais diversos, da França Antártica à hostes do
bloco carnavalesco Vem Ni Mim que Sou Facinha, me deu uma baita saudade do
Rio. E olha que jamais morei em outro lugar na vida. A saudade, diga-se
logo, não é a dos tempos que não vi ou vivi, mas do que deveria estar
perdendo naquela madrugada, deitado, lendo. Pois cada linha das 256 páginas
de “Carnaval no fogo” forma uma Sinfonia de Uma Nota Só, a do fascínio pela
confusão monumental que significa viver por aqui. Se, como disse Tom Jobim,
o Brasil não é para principiantes, acho que o Rio é mesmo para PhDs – em
quê, nem me perguntem.

Pois ser carioca, com o perdão do clichê e do desavergonhado orgulho
bairrista, é uma complexa filosofia de vida que inclui poder ser mineiro de
nascimento, como Ruy, e encarnar e definir tão bem quanto ele o que é o
jeito de ser carioca, assim, em poucas linhas: “uma recusa quase carnívora a
se levar muito a sério, uma combinação de tédio e deboche diante de qualquer
espécie de poder e, não por último, uma joie de vivre que desafia os
argumentos mais racionais”. Como nas grandes paixões, tudo isso que desperta
o amor freqüentemente também nutre o ódio - e não poderia ser diferente com
uma cidade “excitante demais”.

Para justificar o subtítulo e ecoar o título, “Carnaval no fogo” abre com
uma breve descrição da folia de 2003, precedida por um corso de bondes do
mal e um desfile de ônibus queimados pelo tráfico, e fecha com um Revéillon
qualquer, aquele fenômeno de muvucar um milhão de pessoas na praia sem
confusão. Entre inferno e céu, séculos de excitação das mais diversas
origens, que vão desfilando sem museologia - apesar das referências fuçadas
em estantes e estantes de livros sobre a cidade – e com um olho no presente
– livre, no entanto, do imediatismo jornalístico.

Com este vaivém no tempo, Ruy Castro espana de suas páginas o que mais me
incomoda no carioquismo militante, a nostalgia, aquele eterno reafirmar que
o melhor já passou, como se interditasse aos que não viveram um prazer
perdido no tempo. É claro que só posso invejar Copacabana como um areal
vazio, a Penha onde nasci como a maior vitrine do carnaval e do samba nas
festas de outubro, a cidade chique e barra-pesada de Antonio Maria. Mas
estão aí, numa lista mais do que resumida, o cabrito servido pelo Manoel no
Nova Capela, a Brazooca na Casa da Matriz, o Ramos e as cervejas geladas do
Villarino, as madrugadas da Letras & Expressões, a ciclovia da Lagoa, os
fins de tarde em Santa Tereza, e o êxtase insuperável, uma vez por ano, do
Cordão do Bola Preta. (Isso para não falar no finado Caldeirão da Lapa, um
buraco inóspito na subida da Joaquim Silva, com teto baixo e temperatura
alta, animado por um DJ que misturava Pink Floyd e Ivete Sangalo para um
público de gringos, trav! ecas, bandidos, mauricinhos e qualquer um (damas
de todos os sexos entravam de graça) que se dispusesse a desembolsar R$1 –
conheço uma moça que terminou a noite paquerada por um mendigo que pagou o
ingresso com esmolas e, é claro, foi admitido no recinto).

De pequenos prazeres como estes, cultivados como particulares mitologias (de
botequim, é claro), constrói-se o modo de vida esquadrinhado por “Carnaval
no fogo”. Pois, para quem vê de longe, a cidade é cada vez mais fogo e menos
carnaval. De perto, a coisa muda de figura, pois como lembra Ruy, o mítico
bom humor carioca é, na prática, uma forma e estoicismo para agüentar os
trancos da brutalidade cotidiana. Tudo aqui só dá certo porque nada aqui dá
muito certo, do planejamento urbano ao crime organizado: “Seus bandidos são
homens sem um pingo de classe. De tempos em tempos, um deles é promovido a
chefe do crime organizado e a grande imprensa abre manchetes para suas
proezas (curiosamente, só os bandidos do Rio são famosos). Ao ser preso em
seu barraco, descobre-se que era um sujeito sem camisa, com uma barriga
patusca derramando-se sobre uma bermuda em frangalhos. (...) Alguém acredita
que uma figura assim seja capaz de ‘organizar’ o crime?”

Tanta joie de vivre, como se diz em carioquês castiço do tempo de
Villegagnon, desperta, é claro, muita maledicência. Mas assim como
Barcelona, o Rio é uma cidade em que a obrigação deve ter peso igual – ou
menor até – do que o prazer. O IBGE fez as contas, o autor reproduz: o
carioca trabalha 40h47min semanais, restando-lhe para dormir e nada fazer
outras 127h13min a cada sete dias, grande parte das quais ele passa na rua,
na praia, no boteco, enfim, bem longe dos ambientes fechados, dando a
impressão de férias permanentes. O próprio Ruy tem uma técnica para derrubar
argumentos contra o Rio: em qual outra cidade você pode sair para lugares
que sejam ao mesmo tempo bonitos, baratos (ou de graça) e ao ar livre?

“Londrinos são bons em táxi, guarda-chuva, pigarro, cachorro e consciência
de classe (...) parisienses excedem em baguete, nona, livro usado, cigarro
sem filtro e bidê”, escreve o autor. E os cariocas? “São bons em botequim,
sandália de dedo, frescobol, caldinho de feijão e botar apelido nos outros”.
E só mesmo aqui se aprende outra língua - a do “celular pai-de-santo” (que
só recebe) e da “feijoada 0800” (de graça, boca livre) - e se comem iguarias
como o “cabrito Aldir Blanc” – método complexo, inventado pelo compositor,
em que o cidadão tem que espetar num garfo um pedaço de cabrito assado, um
provolone à milanesa e, finalmente, um pedaço de mamão (!) antes de levar
tudo à boca, rebatido com caipirinha.

“Carnaval no fogo” é uma delícia. É bairrista, sim senhor, ostenta um
orgulho insuportável de ser carioca mas é, também e como sempre, um texto de
primeira, arrematado com um parágrafo magistral – que você só deve ler mesmo
no final, resista à tentação. É um anti-guia, que sem ter nada a ver com
filosofia (com esta paisagem? Pra quê?), ensina aquilo que Walter Benjamin
via como uma arte: como perder-se numa cidade.

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