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Re: Gosto e Poesia

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Daniel Brazil (dbrazil_at_ig.com.br)
Data: Sex 05 Set 2003 - 20:10:56 BRT

Prezado Alberto:

Creio que as notícias sobre o reencontro da dupla Bosco/Blanc vão adiar a
nossa discussão por algum tempo... Vamos ver o que sai desse reencontro: Se
as letras do Aldir continuarem "difíceis", significa que ele evoluiu para um
ponto sem retorno. Se voltarem a ficar "redondas", cantabile, a influência
criativa de João Bosco terá demonstrado seu vigor.

Dentre os inúmeros sub-temas que você levantou, um me parece particularmente
saboroso: o das relações entre música e literatura. Palavras tuas:
"Aí, de fato, está nossa divergência. Embora eu admita que há distinções,
não"vejo uma fronteira nitidamente demarcada entre literatura e letra de
música popular. Defendo que há parcelas de territórios em comum."

Menos que divergências, estamos caminhando em neblina densa. Embora o
próprio Chico Buarque já tenha afirmado que "letra de música não é poesia",
somos tentados a assim considerar. Sobre o papel, ressecadas, as letras de
música parecem poesia: tem versos, métrica, rimas...

O problema principal é que elas nasceram vivas, encadeadas à música, e o
que estamos vendo ali é só um esqueleto, um fóssil. Eventualmente vemos um
compositor colocar melodia em um poema (e vários lieds surgiram desta
forma), mas é sempre uma junção forçada, artificial. Um simulacro de canção,
talvez. Outras vezes, sucede o contrário. Você deve lembrar de vários
exemplos mais ou menos felizes desta "parcela de territórios em comum".
Mas insisto: ler uma letra de música, uma de verdade, como se fosse um
poema, desmusicalizando-a (permita-me o neologismo), é como ver uma
borboleta espetada num alfinete no museu. É bonita, mas está morta. Claro,
há quem goste de bandejas decoradas com borboletas...

Sei que é difícil considerar uma canção algo "vivo", e principalmente
distinguir coisas tão semelhantes como poesia e letra de música. Às vezes eu
me confundo, também. É como ver uma pérola artificial e confundi-la com uma
natural. Parecem iguais, mas não são a mesma coisa. Basicamente, o que as
distingue é a origem e a intenção, não acha?

Abraço,

Daniel Brazil

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