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Re: Re: Gosto e Poesia, Catavento e Girassol (Parte 2)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Alberto R. Cavalcanti (arcav_at_brturbo.com)
Data: Dom 07 Set 2003 - 22:11:51 BRT

Caro Daniel

Em primeiro lugar, meu muito obrigado por se dar o trabalho de ler e de
responder meu relambório. E mais ainda pelos elogios, especialmente aquele
"vou reler muitas vezes", que faz o orgulho e lambe o ego de quem escreve.

Sua concisão é uma virtude, não um defeito. Inda mais nesta mídia.

Na sua primeira resposta, v. foi direto ao ponto e creio que realmente
sublinhou uma clara distinção entre sua posição e a minha, o que também me
parece uma virtude, em discussões, no sentido de objetivá-las. V. defende
que literatura é um espaço com regras próprias e música popular é outro
espaço, com outras regras. Que, portanto, algo que pode ser cabível num
território ("inserido no contexto"), não é necessariamente cabível no outro.

Aí, de fato, está nossa divergência. Embora eu admita que há distinções, não
vejo uma fronteira nitidamente demarcada entre literatura e letra de música
popular. Defendo que há parcelas de territórios em comum. Por isso poetas
como Cecília Meireles, Florbela Espanca, João Cabral, Guimarães Rosa e
Vinicius têm contribuído, deliberadamente ou não, para o cancioneiro
popular. Isso já não falando de trabalhos que, nascidos no cancioneiro
popular, podem ser equiparados à melhor literatura, sendo numerosos os casos
em que literatos reconheceram e até invejaram a lavra dos populares. Chico
já não seria um literato, antes de escrever "Estorvo", "Benjamin" e este
outro mais recente que não lembro o nome?

A mulher de hoje, diferente das senhorinhas de antanho, fala sim seus
palavrões, com grande convicção e sonoridade. Ficou público com Leila Diniz
mas já havia começado antes dela. O inglês entrou, sim, para o vocabulário
cotidiano de certa classe de pessoas no Brasil. Se alguém no futuro quiser
pesquisar os hábitos do cotidiano das pessoas de certa classe de pessoas
nesta nossa época e for à música do Aldir, encontrará o testemunho desses
hábitos incorporados.

Mas o principal não é isso. É que entendo que tanto na "grande arte" como na
"pequena arte" (distinção que não é minha, nem sua explicitamente, e que não
defendo, por isso ponho entre aspas, indicando ironia) cabe, sim, a
transgressão do gosto estabelecido, do gosto bem comportado. Não vou ao
ponto de afirmar que o valor estético reside na transgressão e que o valor
de uma obra é proporcional ao seu quantum de transgressão. Há quem defenda
esse vanguardismo permanente, a ruptura todos os dias, a qualquer preço,
como um valor em si mesmo. Eu, não. A transgressão, no meu ponto de vista,
não é indicador suficiente nem do valor nem do desvalor estético de uma obra
artística.

Não tenho discutido a fanzinice de Aldir ou de qualquer outro criador de
música popular. Acredito por princípio que v. tenha razão, quanto a atitudes
idólatras. Idolatria cega, não ilumina. Mas, minha intervenção nesse debate
foi motivada não por coisas que tenham sido ditas a respeito desses
seguidores cegamente fiéis a que v. se refere, e sim por conta do que você
mesmo disse (e outros também) a respeito da obra do Aldir. Se v. voltar a
ler as mensagens trocadas na Tribuna, verá que o que se discutia era a
própria obra do Aldir, não os fãs dele. Pode ser que a intenção, não
explicitada, fosse espicaçar os tais fanáticos. Mas aí, eu com a minha
lusitanice, ao comentar sua mensagem, me prendi ao sentido explícito que
nela vi.

Vejo, acompanhando você, que há gente que aprecia a produção de Aldir de
antigamente e não aprecia tanto a mais recente. Na minha opinião isso está
mais perto de indicar que ele faz agora uma poesia mais madura e matizada
(portanto mais complexa) do que de indicar que ele esteja em algum tipo de
"decadência". O mesmo vale para outros autores. O Chico da maturidade
escreveu coisas como "Futuros Amantes", "Morro Dois Irmãos", "Todo o
Sentimento", que, na minha percepção, são mais essenciais (vão mais fundo na
tentativa de desvendar os mistérios da vida) do que as letras de seus
antigos sucessos. Estes, no entanto, como "A Banda", "A Rita", "Carolina",
"Com açúcar, com afeto", fizeram muito mais sucesso (um sucesso mais que
merecido, são primorosíssimas), agradaram a gente que, mais tarde, não se
agradou tanto das realizações dele na maturidade. Por essas e outras, a
acolhida, em termos quantitativos, tampouco me parece ser indicador
suficiente do valor ou desvalor estético de uma criação artística.

Concordo inteiramente com você quanto ao direito à liberdade de cada um de
nós, apreciadores de música popular, gostar ou não gostar desta ou daquela
fase de um autor, preferir um autor a outro, uma composição em vez de outra
etc. É também o que afirmo e nisso estamos igualados. E, portanto, afirmo o
direito de cada um afirmar suas preferências. O exercício desse direito, no
entanto, tende a perder nitidez se, em vez de eu dizer que "gosto mais de
Catavento e Girassol que de Incompatibilidade de Gênios", eu dissesse, sem
mais aquela, que "Catavento e Girassol é melhor que Incompatibilidade de
Gênios", expressando isso não como uma opinião pessoal, justificada ou não,
mas como um juízo com pretensões de julgamento universal e definitivo.

Agora: v. tocou num ponto que, para mim, é o grande defeito do Aldir, só
perdoável pelo valor da sua obra de letrista de música popular: o cara é
vascaíno. Um desperdício. Fala de sangue em suas letras e deixou faltar as
"rubras cascatas" no negro da flâmula dele. Uma baita incoerência. :-) Mas,
como v. recomenda (e eu prontamente acato), deixemos o futebol pra lá.

De resto, toda esta nossa discussão, que, de certa forma, versa sobre se
Aldir produz melhor ou não quando está em parceria com João Bosco, talvez
esteja para ser superada. Ouvi dizer que há notícia n'O Globo de hoje de que
eles estão retomando a colaboração.

Abração

Alberto
de Brasília, DF
(sem turminha)

Em Sent: Sunday, September 07, 2003 11:54 AM, Daniel escreveu

(...) notei que boa parte do espaço é
dedicado a um paralelo entre "Incompatibilidade de Gênios" e "Catavento e
Girassol". Não fui eu quem buscou essa comparação (parece que foi a Áurea) ,
e em nenhum momento até aqui arrisquei comentários sobre a primeira.
Mas já que o imbroglio está feito, emito minha primeira opinião sobre
"Incompatibilidade": considero mais "redonda", mais bem acabada, sem as
arestas mal resolvidas da segunda. Ambas se valem de comparações irônicas,
que soam como retratos instantâneos de certos modos e procedimentos entre
casais. Ambas carregam expressões que tendem a ficar datadas, com o passar
dos anos. É provável que a geração seguinte já não reconheça a pertinência
de algumas imagens. Não importa, música também serve para fixar um momento,
e há um valor intrínseco nisso aí.
Enfim, gostaria que desta discussão sobrasse o reconhecimento de que há
admiradores de tudo o que Aldir escreve, e há críticos de certas coisas que
ele faz. Ninguém, em nenhum momento, desclassificou o conjunto de sua obra.
E há de se reconhecer que as críticas se dirigem justamente ao período mais
recente, mais "empolado", mais fragmentado, mais áspero (no sentido musical)
do letrista.
O argumento de que a música de Guinga é mais complexa, mais sofisticada que
a de João Bosco pode ser uma armadilha. Há inúmeros exemplos históricos de
rica música sobre versos simplórios, e vice-versa. E um parceiro atual como
Moacyr Luz aproxima-se muito do perfil Bosco/Blanc, em termos musicais. Há
uma mudança real no discurso do Aldir, experimentando outras regiões do seu
arsenal poético. Cabe a nós, fruidores, no fim das contas, gostar ou não
gostar. E demonstrar nossas preferências (por fases, períodos, estilos ou
peças isoladas), sem formar turminhas de pró e contra. Música,
definitivamente, não é futebol...

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