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Paulinho da Viola, o melhor do Rio de sempre

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Paulo Eduardo Neves (neves_at_samba-choro.com.br)
Data: Dom 07 Set 2003 - 20:59:17 BRT

http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/09/07/cad034.html

Paulinho da Viola, o melhor do Rio de sempre
Documentário mostra como o sambista, sem nostalgia barata por falsas
imagens da Cidade Maravilhosa, recupera o lado bom do local onde vive,
oculto pela violência e pelo folclore

JOSÉ NÊUMANNE

Houve um tempo - e não faz tanto tempo assim - que se chamava o Rio de
Janeiro de Cidade Maravilhosa. Não se tratava apenas do resultado
espetacular do sucesso da marchinha de carnaval de André Filho. Não,
era o resultado de toda uma imagem construída por belas paisagens com
lindas canções, falando de sol e mar, o amor, o sorriso e a flor. O que
poderia parecer uma desvantagem era visto como um benefício: os pobres,
obrigados a subir as encostas dos morros para erguer suas moradias
precárias com péssima qualidade de vida, na verdade estavam morando
"mais pertinho do céu". Essa mentalidade - definida jocosamente como
"macumba para turistas", muito tempo atrás, pelo poeta paulista Oswald
de Andrade - teve seu símbolo máximo no filme Orfeu do Carnaval, do
francês Marcel Camus.

Atualmente, apesar de se ter tornado comum até fazer turismo nas favelas
cariocas, essa mentalidade está completamente fora de moda. O Rio
deixou de ser a "cidade maravilhosa" desde que os morros deixaram de
ficar "pertinho do céu" e se tornaram a própria forja do inferno depois
que passaram a ser dominados pelos traficantes de drogas. Ao contrário
daquele tempo em que era o símbolo da beleza e do charme, da saúde e do
prazer, a antiga Capital Federal tornou-se sinônimo do perigo e da dor.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Nem o Rio daqueles "anos dourados"
era o Éden transplantado para os Trópicos nem o de hoje em dia se
transformou súbita e exclusivamente numa sucursal do inferno. Da mesma
forma que há meio século, também havia feiúra e dor às margens plácidas
da Baía de Guanabara, há ainda hoje recantos de paz, beleza e harmonia
numa cidade sitiada pela violência. A cineasta Izabel Jaguaribe mostra
isso com simpatia, sensibilidade e competência em seu documentário Meu
Tempo É Hoje, sobre o sambista Paulinho da Viola, em cartaz nas
principais cidades brasileiras no momento.

O filme retrata com vigor e mão leve a vida de um príncipe. Paulo César
Baptista de Faria é um carioca exemplar. Filho de César Faria,
violonista do conjunto Época de Ouro, que fez história no choro sob a
liderança de Jacob do Bandolim, compôs e interpretou sambas geniais e
canções que entraram pela porta da frente nas galerias da História de
nosso cancioneiro popular. Com seu estilo suave de cantar, encanta o
público. E com seu porte de cidadão reto e cumpridor de seus deveres,
dá um exemplo de ética numa sociedade corrompida pela necessidade da
ascensão social obtida por meio da competição a todo custo e
permanentemente seduzida pelos apelos vulgares ao prazer fácil de um
onanismo narcísico. Com seu taco de sinuca, suas artes de mestre
marceneiro e suas manias de montador de engrenagens, tanto as de
relógios quanto as de motores de automóveis, Paulinho da Viola
transporta o espectador do documentário em que sua vida e sua obra são
o centro a um mundo pacato, onde os valores são o sossego e a
solidariedade, opondo-se à pressa egocêntrica que o cerca.

Pode um crítico mais severo de cinema encontrar no documentário lacunas
de informação, como, por exemplo, o pouco destaque dado a um grande
parceiro de vida e música do protagonista, o poeta Hermínio Bello de
Carvalho. Mas esses eventuais defeitos são compensados pela descoberta
que a câmera faz de um burgo oculto que se esconde atrás da névoa de
sangue que omite a visão completa da antiga Cidade Maravilhosa. A
desprezada zona norte, isolada e esquecida da nata da sociedade que
festeja e badala nas Praias de Copacabana, Ipanema e Leblon, empresta
sua alma comovida e generosa ao filme nos encontros do sambista com
seus colegas de arte e seus familiares em torno de peixadas e rodas de
samba, na quadra da Portela, no sítio de Zeca Pagodinho no Xerém e na
intimidade do lar do cantor. É uma alma que "canta", como no inspirado
Samba do Avião, do maestro Tom Jobim, e que também chora e faz chorar,
mas um choro suave e terno, como aqueles de Pixinguinha, ídolo maior do
País e de seu príncipe negro, que o filme revela.

Quando o coração de Paulinho da Viola se deixou levar pelo rio que
passou pela vida dele e de todo o seu público fiel, a Cidade
Maravilhosa era uma espécie de noiva encantada e encantadora do País
inteiro. Nestes tempos de chumbo em que agora vivemos, o moço vem nos
aconselhar a fazer como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro leva
o barco devagar. Como o intérprete aprendeu na letra do samba de Wilson
Batista, que gosta de cantar, seu tempo é seu mundo. Ou, melhor ainda,
como ele próprio se expressa se dirigindo a todos nós numa lição perene
sobre a evolução e a transitoriedade da vida:

"Eu não vivo no passado, o passado vive em mim."

 
José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do 'Jornal da
Tarde'

-- 
Paulo Eduardo Neves
Agenda do Samba & Choro, o boteco virtual do samba e choro
http://www.samba-choro.com.br 

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