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Destino e Conservação de Grandes Acervos Musicais (O Globo)

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Márcio Almeida (marciobca_at_zipmail.com.br)
Data: Sex 05 Set 2003 - 15:28:50 BRT

De "O Globo" (05/09/2003):

Abrigos sonoros (João Máximo)

Se você tivesse discos muitos raros, fitas com depoimentos exclusivos de compositores famosos, partituras e livros considerados perdidos, uma autêntica memorabilia , enfim, de preciosidades da música popular brasileira, a quem a confiaria? A qual museu, instituto, arquivo ou casa de cultura doaria, venderia ou legaria o que vem colecionando há décadas, com a paciência de um Almirante e a sabedoria de um Lúcio Rangel?

O historiador José Ramos Tinhorão, que soma as duas virtudes, já passou o que tinha ao Instituto Moreira Salles (IMS). O poeta e produtor cultural Hermínio Bello de Carvalho — que sempre rejeitou o rótulo de pesquisador, mas que passou toda a vida preocupado com a memória da música popular — prefere que suas fitas, contendo vozes e instrumentos de Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Elizeth Cardoso, Sarah Vaughan e outros, fiquem sob a guarda do Museu da Imagem e do Som (MIS). Mas impõe condições:

— Desde que tenha o respaldo financeiro do Estado para recapacitar-se como instituição destinada à preservação da memória nacional. Marília ( Barbosa ) tentou, Edino ( Krieger ) deve estar tentando, mas a verdade é que a dúvida permanece.

Músico diz que MIS esconde seu acervo

A preocupação de Hermínio são as fitas.

— Tenho muitas apodrecendo aqui em casa, sem condições financeiras de recuperá-las. Um disco você pode achar em dezenas de coleções e reprocessá-lo a qualquer hora. Foto antiga, o computador restaura, Mas reconstituir uma fita que se desmancha ao calor ou apodrece por desuso é mais difícil. O que se faz com uma fita que registra um momento irreprisável ? Já propus à TVE juntar-se ao Sesc nessa tarefa. Sem êxito. Propus o mesmo ao Itaú Cultural. Nada feito.

Já o músico Maurício Carrilho não tem em relação ao MIS a mesma posição de Hermínio. Uma experiência de três anos atrás o deixou temeroso. Depois de pesquisar mais de duas mil partituras de choro da coleção Mozart Araújo, na divisão de música da Biblioteca Nacional, foi ao MIS com uma proposta: cederia cópias do que já tinha, em troca do que pudesse xerocar no MIS.

— Tive reuniões com a diretora da casa e não chegamos a lugar algum — diz Carrilho. — As partituras ficaram lá, adormecidas, sem chance de serem levadas ao público.

Levar ao público é bem o caso, pois, enquanto parte da coleção Mozart Araújo se convertia numa coleção de CDs gravados por Carrilho e outros dos melhores músicos do Brasil, o que está no MIS continuou lá.

— Veja esta história do acervo do Ernesto Nazareth, precisando de proteção num sítio de meio de estrada — diz Carrilho, estabelecendo paralelo com o do MIS. — Para que proteger Nazareth? De proteção, precisava quando foi internado num hospício. Nazareth deve ser tocado em vez de protegido.

Edino Krieger, novo diretor do MIS, pensa diferente da diretora anterior em vários pontos. Como o de fazer com que um lugar que se dedica quase exclusivamente ao popular dê atenção também ao clássico. Compositor com trânsito nas duas áreas, Krieger é uma esperança que Carrilho alimenta de ter acesso aos choros que faltaram em sua pesquisa. O maestro se diz aberto a isso.

— A consulta no MIS está aberta a toda e qualquer pessoa cadastrada — diz ele. — Mesmo agora em que o prédio da Praça Quinze está em obras e parte do acervo foi trazida para este prédio da Lapa.

Um prédio de cinco andares, com elevador em reparo e pouco espaço disponível. Krieger se permite brincar ao falar de seus planos para o futuro:

— São bem modestos: um prédio novo, para dar ao MIS a dignidade que merece. A importância do museu já é grande graças ao seu acervo. O necessário agora é dar tratamento correspondente a essa importância. Precisamos de espaço, inclusive para exposições, e, também, de equipamento de última geração. O MIS não é uma instituição apenas para guardar. Seu papel é também de integrar o acervo no processo cultural. Verba? Temos. Mas é necessário mobilizar a iniciativa privada para viabilizar tudo que temos programado.

Acervos sofrem com a falta de especialistas

Ricardo Cravo Albin, presidente do instituto que leva o seu nome, orgulha-se de ser este o único, em todo o Brasil, dedicado exclusivamente à música popular.

— E sem apoio oficial — enfatiza, negando ter recebido qualquer incentivo do MinC.

A idéia do instituto nasceu, segundo a diretora Maria Eugênia Stein, de uma preocupação de seu criador:

— Não tendo filhos para deixar sua discoteca e, principalmente, sua casa, achou melhor doar em cartório ao que hoje é o instituto. A casa, de grande valor histórico, podia ser ameaçada por uma dessas explosões imobiliárias que modernizam tudo. Seria necessário tombá-la. Quanto aos discos, os LPs que ele vinha colecionando há mais de 40 anos são a base do acervo.

Morte de Tião Neto parou setor de discos da Biblioteca

Ajudas como a da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e da Faperj tornaram possíveis o “Dicionário Cravo Albin”, que está na internet, e a equipe de técnicos que trabalha na recuperação dos LPs.

— Continuamos recebendo doações — diz Cravo Albin. — Essa equipe cuidará delas assim que tiver tratado e fichado o meu acervo, o que deve contecer até novembro.

A dificuldade de consulta está em que não é fácil nem simples o acesso à cobertura onde Ricardo mora e onde funciona o instituto. Planos para o futuro, como o de criação de um plano inclinado levando até o local onde vai funcionar o ponto de consulta, são ambiciosos e dependem de verbas.

O problema da Biblioteca Nacional, na Avenida Rio Branco, é outro: grande parte do acervo doado está fechada em caixas que ninguém ousa abrir, ou em discos que não se devem manipular.

— Com a morte de Tião Neto, que cuidava dos discos, essa parte está parada — diz a funcionária Elza Regina da Costa Menezes.

Partituras estão intocadas por falta de especialistas

Já a coleção Pascoal Segreto (partituras e textos do teatro musical brasileiro dos anos 20 e 30) é intocável.

— Precisamos de gente especializada, músicos que saibam ler partitura, pesquisadores que saibam do que tratam os textos — explica Elza, apoiada pela colega Suzana Martins. — Sem isso, não podemos mexer neste acervo, doado há dez anos. Quem sabe o que é esta partitura ou aquela parte de piano? Só um músico.

A seção de música da Biblioteca Nacional não mudou muito nos últimos três anos. Ao contrário do Instituto Moreira Salles, que não pára de crescer e que é, hoje, o mais espaçoso e bem equipado do Rio (o mesmo em São Paulo). Se bem que Maurício Carrilho jura ser necessária uma séria revisão nas partituras atribuídas a Pixinguinha em sua coleção. Muita coisa ali não é dele. Na memória da música popular, nem tudo é perfeito.

Para pesquisar música

MUSEU DA IMAGEM E DO SOM (Rua Visconde Maranguape 15, Lapa. O prédio da Praça Quinze foi desativado há dois meses para obras de reparo da fachada posterior). Dirigido pelo maestro Edino Krieger, o MIS guarda discos e fotos dos arquivos Almirante (incluindo 40 mil partituras), Jacob do Bandolim (seis mil), Lúcio Rangel (40 mil discos), Elizeth Cardoso, Rádio Nacional (incluindo gravações e scripts de programas), mais vídeos dos shows Brahma Extra e coleções de recortes de jornais e revistas sobre personalidades, carnaval e outros temas. Consultas abertas a pesquisadores cadastrados, de segunda a sexta-feira, das 11 às 17h.

INSTITUTO MOREIRA SALLES (Rua Marquês de São Vicente 476, Gávea). José Luís Herencia é o coordenador do setor de música, cujo acervo musical abriga as coleções Pixinguinha (fotos e partituras), Umberto Franceschi (13 mil discos de 78 rotações por minuto), José Ramos Tinhorão (20 mil discos, 55 mil recortes, dez mil partituras, livros), Walter Silva, o Picapau (162 fitas de rolo com gravações de shows e programas de rádio). O material é dos mais bem cuidados — o que não está informatizado passa por processo de informatização, os fonogramas estão digitalizados, o site tem emissora de rádio; shows e palestras estão incluídos entre as atividades musicais. Consulta: de terça-feira a domingo, das 14 às 18h.

BIBLIOTECA NACIONAL (Palácio da Cultura, 3 andar). A seção de música é chefiada por Glicia Campos e tem no acervo as coleções de partituras Mozart Araújo, Andrade Mauricy e Francisco Mignone, além de discos de 78 rotações, livros, enciclopédias e coleções completas de compositores clássicos. Consultas: de segunda a sexta-feira, das 11 às 17h.

INSTITUTO CULTURAL CRAVO ALBIN (Rua São Sebastião 2, Urca). O acervo é composto pela discoteca de seu presidente, Ricardo Cravo Albin, com seis mil LPs. As consultas ainda não são abertas ao público, mas casos especiais são considerados. Um dicionário musical, com o nome do presidente, está disponível na internet.

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