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Re: nicolas krassik e o choro

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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Autor: Luís Filipe de Lima (filipe_at_marlin.com.br)
Data: Sex 05 Set 2003 - 00:12:52 BRT

Graaaaande Nicolas!

Bom que você apareceu aqui por estas quebradas.

Sou suspeito pra falar de você, porque sou ao mesmo tempo seu amigo, seu colega e seu fã.

Mas, enfim, também venho de vez em quando dar uma sacada nas discussões da Tribuna, tanto quanto o tempo vem me permitindo nos últimos meses. E vi o papo que tem rolado em torno do seu trabalho. Daí, achei importante escrever, trazendo pra discussão o depoimento de alguém que te conhece mais de perto.

Pra lá das discussões "choro tradicional" versus "choro moderno" ou "choro é um gênero musical" versus "choro é uma maneira de tocar", o importante pra mim é que você reúne qualidades que são raras de se encontrar em um músico só: técnica, virtuosismo, inventiva, emoção, a capacidade de tocar ouvindo os outros músicos e - fundamental pra música que a gente faz nas rodas de samba e choro - humor.

E mais: penso que você é um músico de sotaque brasileiríssimo - tanto é que veio parar aqui no meio da gente, mora no Brasil há menos de dois anos e fala português melhor que conterrâneos seus que estão aqui há décadas, come o cabrito com arroz de brócolis do Capela às três da madrugada, casou com uma carioca que é professora de dança de salão, já se acostumou com os atrasos nos ensaios e com o "semana que vem eu te ligo" dos cariocas, está com um repertório cada vez maior de boa música brasileira, vem sendo reconhecido cada vez mais por músicos da pesada (Carlos Malta, Paulo Moura, Maurício Carrilho, Márcio Bahia, Arismar do Espírito Santo, Zé Carlos Bigorna, Henrique Cazes, Marco Pereira, os paulistas Zé Barbeiro e Miltinho de Mori, só pra ficar na "velha guarda"), e está perfeitamente integrado com a nova geração de músicos de "choro" (com o perdão dos puristas), Yamandu, Hamilton de Hollanda, Gabriel Gross, Gabriel Improta, Zé Paulo Becker, Rogério Caetano, Daniel Santiago, o pessoal do Tira Poeira, do A
braçando Jacaré, do Rabo de Lagartixa. Sem falar do pessoal do samba: Beth Carvalho, Tereza Cristina, Nilze Carvalho.

Tenho tocado pelos botequins brasileiros há coisa de quinze anos, e já acompanhei em canjas muitos músicos europeus, norte-americanos, sul-americanos, japoneses, todos tocando música brasileira. Alguns eram de fato brilhantes (lembro do Jeff, um trombonista de Nova Iorque que nunca mais pintou por aqui), outros ficavam só na tentativa.

Você não, Nicolas, você conseguiu mais do que "tocar bem" música brasileira. Você conseguiu "pensar" música brasileira, mesmo que ainda tenha uma infinidade de coisas a aprender e conhecer por aqui. Você conseguiu virar "cúmplice" de muitos instrumentistas brasileiros, sendo exatamente quem é, um violinista francês que estudou anos a fio num conservatório com uma professora chatíssima e exigente, que foi discípulo do pirotécnico Didier Lockwood, que tocou música turca, que começou a ouvir e tocar música brasileira na França. Se virando assim desse jeito, fico até imaginando se você não foi brasileiro em outra encadernação.

Claro, você não precisa de atestado nenhum de brasilidade, muito menos dos meus elogios rasgados. Nem que alguém tente convencer os outros de que você é bom, porque em música - graças aos céus, aliás - cada ouvinte é senhor do seu próprio juízo. Além disso, é aquele lugar-comum, não se pode agradar a todos.

Só me permito discordar de você em uma coisa.

No meu jeito de entender o choro - uma "maneira de tocar" viva, dinâmica e antropofágica (à maneira dos modernistas paulistas) -, considero você um legítimo chorão. Basta ouvir Pixinguinha, Garoto, Radamés, K-Ximbinho, Severino Araújo e seus choros de gafieira pra se perceber isso.

Acho até que você é muito mais chorão do que suspeita. Lógico, não será jamais um músico de choro tradicional, entendido como um gênero musical cristalizado, embora riquíssimo. De fato, suas "articulações frasais" e seu "padrão melódico-rítmico de improvisação" não são decalcadas no que se fazia há quase um século e - felizmente - continua a se reproduzir hoje por muita gente boa.

A questão é que o choro pode ser entendido para muito além das fronteiras estritas de um gênero musical - o que é assunto pra muitos chopes. E aí, Nicolas, tenha certeza: você é um chorão da melhor qualidade.

Sucesso sempre.

Salut!,
Filipe

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