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Re: Morre Dona Zica

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Tiago Prata (tiago.prata_at_uol.com.br)
Data: qua 22 jan 2003 - 13:37:26 EDT

http://oglobo.globo.com/oglobo/especiais/carnaval/69279157.htm

Luto na verde e rosa
Do Globo On Line

RIO - Morreu hoje, aos 89 anos, dona Zica, verdadeiro símbolo da escola de
samba Estação Primeira da Mangueira. Um dos baluartes da escola verde e
rosa, Eusébia Silva de Oliveira faleceu esta manhã em casa. Dona Zica, que
já fora internada várias vezes com problemas de coração, havia sido
hospitalizada há cerca de um mês. Dona Zica deverá ser velada na quadra da
escola de samba.

Dona Zica, viúva do compositor Cartola, o melhor diretor de harmonia que a
Mangueira já teve, foi figura ilustre desde a fundação da escola de samba.
Não era para menos: nasceu num domingo de carnaval, o de 6 de fevereiro de
1913, na Piedade. E também inspirou vários sambas de Cartola, como "Nós
dois".

- Cartola fez muitas músicas para mim. Era comum estarmos conversando e
nascer belos versos que depois se tornariam sucesso - disse ao Globo em
1993, aos seus 80 anos.

Mas sua vida foi entremeada por quartas-feiras de cinzas. Sua mãe, Gertrudes
Efigênia dos Santos, lavadeira de profissão e já viúva, a entregou a uma
família de posses, como era costume na época, na esperança de um futuro
melhor para sua pequena Euzébia. Zica foi então morar com Dona Mocinha,
recém-casada e moradora de Copacabana. Até os 12 anos, ela trabalhava de
segunda a sábado fazendo todo o serviço da casa. Gata borralheira é pouco.
Apanhou muito. "Um dia me bateu tanto com a panela na cabeça que tirou
sangue. Se uma vizinha não acudisse, acho que dona Mocinha me matava. Eu
contava para minha mãe, mas ela, coitada, me pedia paciência", contou Dona
Zica na biografia "Na passarela de sua vida", de Odacy de Brito Silva,
lançado em 1999. O consolo da futura rainha da Magueira era a praia. "A
patroa ia de maiô azul-marinho, sapatos de borracha, o marido de calção
preto, os dois de roupão. Eu ia de vestidinho velho e ficava abismada com o
mar, tão grande e bonito. Vi Copacabana começar".

A redenção veio através do samba. Dona Zica conheceu Cartola ainda na
infância, nos desfiles dos blocos carnavalescos de rua. Cartola pertencia
aos Arrepiados, enquanto dona Zica era do Bloco do Seu Júlio. Foram se
reencontrar depois de muitos anos, em 1952. Casaram-se depois de 12 anos
juntos, em 1964. Dona Zica foi fundamental na vida e na carreira de Cartola.
Na época em que moravam juntos, Cartola compôs "As rosas não falam" e "O sol
nascerá" (parceria com Elton Medeiros).

- Cartola e eu nos conhecíamos desde crianças, vivíamos ali no morro. Ele
saía num bloco e eu em outro. Depois ele fundou a Mangueira e eu comecei a
sair nela. Cartola casou-se com uma moça e eu também casei com outro rapaz.
Saí do morro e ficamos muito tempo longe um do outro. Mais tarde eu fiquei
viúva, ele também. Um dia nos reencontramos na casa da minha irmã. Ele jogou
aquele papinho dele, eu também estava à toa, e daí estamos juntos até hoje -
disse, em 1973.

'Quem gosta de homenagem póstuma é estátua'

Com Zica, Cartola viveria até morrer de câncer em 1980. Ele havia sido vigia
e lavador dos carros dos moradores de um edifício em Ipanema, em 1957. No
início dos anos 60, ele se tornou zelador da Associação das Escolas de
Samba, localizada num velho casarão no centro do Rio. Zica, exímia
cozinheira, passou a servir um sopão e vários músicos começaram a fazer
rodas de samba no lugar. O mix de música e comida resultou no Zicartola, em
1963. A dupla dinâmica, Zica tomava conta dos comes, e Cartola do samba. Os
sambistas de todo o morro e da bossa-nova freqüentavam o bar, entre eles
Hermínio Bello de Carvalho, Sérgio Cabral, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Élton
Medeiros, Paulinho da Viola, Moreira da Silva e Nelson Cavaquinho. Além de
personagens ilustres como Elizeth Cardoso e Nara Leão, Jorge Amado e
Vinicius de Moraes, transformando o bar num marco da integração entre a
intelectualidade da zona sul e a cultura do morro. Mesmo com todo o sucesso,
o Zicartola fechou após dois anos, por má administração.

Em 1965 o casal começou a construir sua casa ao pé do morro da Mangueira,
num terreno doado pelo governo, mas os dois quase sempre passaram por
dificuldades financeiras. Cartola só conseguiu realizar seu sonho de gravar
um disco em 1974, aos 65 anos de idade.

- Quem gosta de homenagem póstuma é estátua. Eu quero continuar vivo e
brigando pela nossa música. Sinceramente, eu não acreditava que ainda
viveria esse tempo de grande justiça que o povo brasileiro, apesar dos
pesares, faz à música brasileira - disse Cartola à revista "Manchete" em
dezembro de 1977.

A primeira-dama da Mangueira flertou com a carreira de atriz em
participações nos filmes "Rio Babilônia", "Orpheu do Carnaval", "Ganga
Zumba" e "Mangueira, amor à primeira vista". No mesmo ano, participou da
novela "Xica da Silva", da rede Manchete.

- Estava na casa da Neuma quando telefonaram. Achei estranho, porque fui
pega de surpresa. Minha filha foi contra, achou que eu ia me cansar, mas
minha médica me liberou - contou na época.

Dona Zica transcendia o morro e a Sapucaí

No mesmo ano, a viúva de Cartola quase matou de susto os fãs da nação
mangueirense. Queixou-se de fortes dores no peito e dificuldade para
respirar. Sofria do coração e tinha diabetes, acabou sendo internada numa
clínica da Tijuca, com edema pulmonar agudo. Sofreu um infarto em 1988, se
recuperou, voltou a ter crise de hipertensão em 2000, e antes do carnaval de
2002 foi internava novamente. Ela deixou dois filhos (Regina e Ronaldo) de
um casamento anteriores a Cartola , dois netos (Pedro Paulo e Nilcemar) e o
bisneto Victor. Sua parceira e amiga de longa data, Dona Neuma, morrera em
18 de julho de 2000, o ano em que a escola completou 72 anos. Ao lado de
Dona Zica, ela desfilava sempre no carro dos baluartes mangueirenses.

Como resumiu Odacy de Brito Silva num trecho de "Na passarela de sua vida",
Dona Zica foi, sobretudo, um ícone do samba que transcendia o morro e a
Sapucaí: "A mulata Euzébia, que foi mulher de Cartola e cunhada de Carlos
Moreira de Castro, o Carlos Cachaça, viúvo de Menininha, irmã da grande dama
verde e rosa, foi personalidade nacional. Conheceu o Brasil inteiro, batizou
escolas de samba em tudo quanto foi canto. Viajou pela Europa, França e
Bahia. Foi comendadora de vários títulos aqui e no exterior. Sua presença
era saudada e louvada pelos próceres, senhores de poder e do tesouro: uma
foto ao lado dela rendia prestígio. Chegou onde dona Mocinha nunca ousou.
Bebeu champagne em taças masi delicadas que as que lavou. Até o presidente
da República abria espaço na agenda para receber a Zica da Mangueira,
bandeira e seu povo. Um dia disse, simples como sempre fora: 'E não é só
ele. Tudo quanto é rei, presidente, governador, prefeito, príncipe, artista
de todo jeito vem aqui, me chama para as festas, procuram me agradar. É
assim na minha casa, é assim na casa de Neuma. Gostam da gente'".
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