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Re:João estamos chegando a algum lugar, sem ofensas.

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Carlos Mauro (cmtiosamba_at_hotmail.com)
Data: dom 19 jan 2003 - 12:50:49 EDT

João Ntanure (JN) e Newton Motta (NM) discutem aspectos importantes do "DNA"
do samba.

Sinto que vou levar algumas cacetadas mas não posso deixar de meter a colher
onde não sou chamado, isso é mais forte do que eu:-)).

JN:
>
>Caro Sr. Newton
>
>Nao sou contra sua tese, mais se o negro nao so teve a participacao, mais a
>maior dela, num movimento cultural e de resistencia politica e social.
>Entao
>vc disse, pela minha logica, que o samba eh de formacao negra, agregada
>de outras harmonias (...)

JN:
>
>É o seguinte: o batuque, que veio da áfrica, e que se espalhou por todo o
>brasil, assimilando e sendo assimilado nas várias regiões, não podemos
>chamar de samba, pois não é definitivamente samba, o samba “nasce” segundo
>a história “oficial” com as tias ciatas, e Sinhô, seria o seu fixador.
>Mas o samba que Sinhô fixou, ainda não era samba como nós o conhecemos
>hoje, era maxixe, e como nós concordamos, que o samba é afro-brasileiro,
>essa é a força da minha tese, independente de questões tipo
>social-política-econômica, que acho que não pode ficar de fora de uma
>discussão como essa, mas não obstante, foram muito discutidas na análise
>feita pelos tribuneiros do livro o mistério do samba.
>
>Eu levo a discussão para o plano musical, ou seja, o gênero samba, seria
>diferente do gênero maxixe, o pelo telefone seria o samba da cidade
>amaxixado, e só quando a batucada entra no samba, introduzida oficialmente
>no samba na pavuna que é de autoria de Homero Dornelas, cujo pai, Sofonias
>Dornelas, era filho pelo lado paterno de um mestiço, de aborígene-africano,
>e materno, ingles-portugues e Sofoniass Dornelas, natural de pernanbuco
>era casado com uma curitibana branca e loira.(só como exemplo)
>Assim segundo a minha tese quando o samba “nasce” com Ismael, como gênero,
>ele já está bem amalgamado, com influências das mais diversas.
>
>quanto a harmonia, diferentemente de como você coloca, não é harmonia
>agregada, não é acessória, é estrutural, na verdade, sem a harmonia que
>chegou com os europeus, não haveria o samba como nós o conhecemos, a
>harmonia da música africana nunca foi levada a sério pelos pesquisadores,
>mas como eu afirmo que o banjo, era de origem africana, creio que os negros
>possuissem um repertório harmônico, mas diferente da harmonia ocidental, e
>devido ao contato principalmente dos Sudaneses, poderiam até trabalhar o
>quarto de tom?
>Agora, a primeira e Segunda do Donga para construir seus sambas no seu
>violão, podem Ter certeza é estrutural e europeia, é por isso que afirmo
>que o samba e mais mestiço que negro, pelo menos quanto ao gênero.

Newton Motta está completamente certo. A harmonia no samba, no choro, na
música africana, no jazz e em qualquer gênero musical pra valer (que não
seja apenas uma denominação criada para fins mercadológicos) é uma
caracteristica estrutural essencial, assim como o é a asa para as
borboletas, a ausência de pernas para as cobras e a força descomunal para o
Super-homem. Referir-se ao samba pensando apenas na batucada é igual a
comprar uma empada de camarão e comer só o camarão do recheio, jogando fora
todo o resto.

A harmonia utilizada no samba tem origem européia em 90% dos casos. Há, é
claro, exemplos que fogem à regra como, por exemplo, algumas composições de
Wilson Moreira (provavelmente devido à grande influência que o compositor
teve de gêneros genuinamente africanos como o jongo, cultivado sem grandes
distorções na região do Vale do Paraíba, onde Wilson nasceu).

Quanto a velha e recorrente questão sobre "a cor do samba", já me posicionei
aqui nesta Tribuna a respeito. Se pensarmos "biologicamente", do ponto de
vista da estrutura musical, o samba é essencialmente mestiço. Por outro
lado, se pensarmos no samba como uma "linguagem", um rico "recipiente de
significados", temos que analisar profundamente os diferentes momentos
históricos, pois a arte, assim como as palavras e expressões culturais podem
mudar o seu significado ao sabor dos tempos. O que era sinônimo de
sofisticado ontem pode significar hoje o supra-sumo da breguice. O que hoje
é "politicamente correto", ontem era ridículo, e por aí vai.

Raciocinando tendo como paradigma esta última acepção, ou seja, pensando o
samba como um gênero musical que carrega consigo um significado
sócio-político-cultural, acho que o melhor método para se determinar "a cor"
do samba é o método utilizado pelo IBGE para a determinação da raça nas
estatísticas: a auto-declaração. Isto é, o samba será branco, negro,
amarelo, vermelho ou mestiço de acordo com a declaração de quem produz o
samba: compositores, intérpretes, arranjadores, instrumentistas - os ditos
sambistas.

Pois se a importância da "cor" do samba não é simplesmente musical mas
sócio-político-cultural, devemos ser "politicamente corretos" ao
determiná-la.

Um abraço,

Carlos Mauro.

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