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O SAMBA EM JOÃO DO RIO, POR TIA CIATA

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Paulo Cesar Pereira de Oliveira (orunmila_at_netsitemail.com.br)
Data: sex 10 jan 2003 - 00:05:29 EDT

, como se percebe, um retratista sagaz da cidade e da alma brasileira na virada do século. Este texto, assim como todos os presentes no indispensável livro "A Alma Encantadora das Ruas", é fundamental para qualquer um que pretenda entender a identidade mais profunda do povo brasileiro. Identidade esta tão autêntica, tão presente, mas que vai dolorasamente vemos se esvaindo em meio a todas as formas de violência que nos são impingidas, dentre as quais talvez a mais sutil e mais destruidora seja a aniquilação da nossa singularidade, diversidade e expressividade culturais.

Duas coisas chamaram-me a atenção, particularmente. Uma é a constatação do sentido corrente da designação "sambas de carnaval" posto que nenhuma adjetivação, explicativa ou restritiva lhe segue, dando a entender que a significação fosse perfeitamente partilhada pelo senso comum. Claramente, não possui a significação rítmica específica que hoje designa um gênero musical, mesmo porque a cristalização deste elemento rítmico só se deu mais de trinta anos após a data deste maravilhoso escrito, apesar de apontar inequivocamente para as matrizes rítmicas e cênicas de origem africana (“...porque a origem dos cordões é o Afoxé africano...”). Contudo, pelo tom de todo o texto, podemos tentar intuir a carga mais profunda de significações que a palavra encerrava, algo que tange a forma mais autêntica, espontânea e, ao mesmo tempo, especificamente engendrado para desfiar as agruras, alegrias, penúrias, dasabafos e desejos de um povo que era mantido sempre calado. trezentos e sessenta e dois dias por ano. Mara
vilhoso saborear esta atmosfera de catarse coletiva da parcela mais humilhada, mais subjugada de uma nação. Mais emocionante é perceber como esta carga significativa da palavra "samba", enquanto o privilegiado cantochão dessa liturgia que dialeticamente leva ao extremo o sagrado e o profano, perpetuou-se mesmo após a fixação e o predomínio da significação propriamente rítmica, conferindo essa sacralidade que nós, amantes do samba, sentimos tão fortemente, mesmo sem muitas vezes sermos capazes de verbalizar. Sacralidade esta que escancara o pecado daqueles que teimam em tomar seu santo nome em vão, de pagodeiros a Super-Escolas S/A.

A segunda curiosidade é perceber como, bem inversamente ao que comumente se aceita, o carnaval de rua do Rio de Janeiro hoje é muito mais “família” do que há cem anos atrás. A única coisa que talvez haja em comum são as turbas se acotovelando nas ruas em determinadas manifestações, mas o que mais se vê hoje em dia, em vez da atmosfera de luxúria, são criancinhas montadas nos ombros dos pais. O carnaval de rua, hoje, certamente é mais comportado, mais seguro. Se ainda é alegre, se ainda se presta à descontração, à música e à dança, falta-lhe a essência do povo, em sua quase desesperada necessidade de bradar seus tormentos, desejos e prazeres em forma de sambas. Se nele há ainda, aqui ou acolá, pretas bêbadas desconjuntando os quadris largos, a verdade é que perdeu-se esta dimensão de verdadeira transgressão, na acepção viceralmente coletiva. A sua luxúria, assim como sua música e sua dança, hoje são fabricados e podem ser comprados em ofertas “pret-a-porter”.
Fernando José Szegeri
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