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O SAMBA EM JOÃO DO RIO, POR TIA CIATA

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Paulo Cesar Pereira de Oliveira (orunmila_at_netsitemail.com.br)
Data: qua 08 jan 2003 - 01:02:57 EDT

Mãe aninha expressou as linhas mestras da constituição da nacionalidade negra no Brasil num momento crucial de profundas mudanças ocorridas na sociedade global.
A luta pela independência , pelo fim da escravidão, do racismo, do genocídio e da exploração desenfreada da força de trabalho passavam pela afirmação sócio-existencial constituinte da identidade negra através da implantação e expansão do processo civilizatório negro-africano no Brasil.
Da comunidade terreiro, centro irradiador dos valores da tradição, se desdobravam formas de atuação frente à sociedade neocolonial que se constituia paralelamente.
Seguindo os passos de Oba Saniya e Bomboxe Mãe Aninha ( Iya Oba Biyi) faria inúmeras viagens da Bahia para o Rio de Janeiro. Oba Saniya e Bamboxe que também possuía o titulo de Balé Xango, estiveram no Rio de Janeiro por volta de 1886 e se instalaram no bairro da Saúde, implantando o axé de suas respectivas casas. O terreiro fundado por Bamboxe, após deu retorno à Bahia, foi segundo contam, entregue ao renomado João Alaba, que continuaria a tradição. No terreiro de João Alaba, Hilaria Batista de Almeida, Omo Oxum ( filha de oxum) conhecida por Tia Ciata, ocuparia o posto de Iyá Kekere ( Mãe Pequena).
Alguns anos após o retorno de Oba Saniya e Bomboxe à Bahia, Mãe Aninha faria sua primeira viagem ao Rio de Janeiro.
Encontrou o terreiro de Oba Sniya em estado precario muito abandonado, e logo tratou de limpa-lo e recolocar tudo em ordem.
Durante esta estadia, Aninha iniciou algumas , aninha iniciou algumas iyawo e foi cercada das tias baianas mais proeminentes residentes na região a que Heitor dos Prazeres um dia chamou de Mini-África, e que ia da Praça Mauá e Pedra do Sal até a Cidade Nova.
Por essa região se estendia a colônia baiana e muitas dessas pessoas logo se aproximaram de Aninha, como:
Tia Joana Obasse de Oba, Tia Sanan, de Oxossi, Tia Oxum toqui,
Tia Liberata, Oloya de Iyansa, Tia Josefa Rica, de Oxum, Tia Bombala de Iyansã, Tia Paulina, Oxum Quere, Tia Amélia e Tia Bambala, ambas de Oxaguiã, e Mãe Oyá Bomin, Iyalorixá do axé da Rua São Caetano, 26.
Retornando à Bahia, aninha se encontrou rodeada do pessoal da antiga, ligado ao terreiro de Oba Saniya após seu falecimento em 1907.
Alguns anos depois, ela adquiria a roça de São Gonçalo, onde três anos depois fundou o Ile Ase Opo Afonja, em Setembro do mesmo ano, como já observamos, fez a iniciação de Agripina de Souza, Oba Deiy.
Mãe aninha só retornará ao rio de Janeiro, por volta de 1925, hospedando-se em São Cristóvão, na casa de sua grande amiga, Maria Ogala, relacionada com a tradição da sociedade Gelede.
Nessa ocasião, aninha iria morar na cidade Nova, na rua Alegre, época que conheceu o prof. Agenor Miranda, do Ile do afamado babalorixá João Abedé, situado na Rua João Caetano. Nessa época, duas filhas de aninha, feitas na Bahia, já estavam residindo no Rio de Janeiro, Filhinha de Oxum e Agripina de Xango. Mãe Aninha continuava no rio as atividades relacionadas a tradicional religião africana, foi nesse ambiente que conheceu Alberto Lobo, Zinssy, em 1926, e que mais tarde seria iniciado por ela, tornando –se Baba Ewé.
No ano de 1935, aninha, que resolvera voltar definitivamente a Salvador, deixou com Filhinha e Agripina a responsabilidade de zelar pelo axé do Rio de Janeiro.
Daí até seu falecimento, Aninha trocou vasta correspondência com Agripina, que seria a primeira Iyalaxé do Opo Afonja do rio de Janeiro, em Coelho da Rocha. Após o falecimento de Agripina, em 1966, sucedeu-a Cantulina Pacheco, Mãe Cantu, aira Tolá, que até os dias de hoje continua à frente como Iyalorixá.
Muitos tios e tias baianas, pessoas do culto, emigraram para o Rio de Janeiro, continuando a tradição. Os valores e o universo simbólico da tradição dos orixás influenciaram outras religiões, com a Cabula, de origem Bantu, voltada par o culto aos ancestrais que incorporaram o panteão Nagô, formando, posteriormente a religião da Umbanda.
As relações entre Bahia e Rio de Janeiro se intensificaram na colônia baiana de tal modo que hoje marca substancialmente a identidade de grande parte da população desse Estado.
No que se refere aos desdobramentos dos valores e linguagem da tradição dos orixás no âmbito da cultura do que se convenciona chamar de mundo do samba, não podemos deixar de fazer menção às atuações de Tia Ciata, Tia Bebiana e Hilario Jovino, pertencentes ao terreiro de João Alabá, que segundo contam, visitava com freqüência o Ile Opo Afonja em Salvador.
Hilária Batista de Almeida ( tia Ciata) foi iniciada em Salvador, onde nasceu por Bamboche, filha de Oxum, emigrou para o Rio de Janeiro, acompanhando a torrente de baianos que vinham nos navios erguendo a bandeira branca para sinalizar para a Pedra do Sal que estavam chegando. Lá seriam recebidos por Tia Dada e Tio Osun, que lhes prestavam assistência em seus primeiros dias de chegada. Tia Ciata teve quinze filhos, e com muito denodo criou a todos, mantendo-se através de seus negócios de doces e aluguel de roupas.
Tia Bebiana de Iyansã era irmã de Ciata.
...com seu oficio de pespontadeira, organizando pequenas corporações marcadas pela solidariedade de laços entre seus membros geralmente já ligados pela religião. A ausência da família nuclear é compensada pela vitalidade do grupo que não segrega a criança ao meio infantil, incorporando-a na própria batalha pela sobrevivência.

D. Carmen Teixeira da Conceição, Olorixa, a Tia Carmen do xibuca, seu marido com teve 21 filhos e criou mais oito, iniciada por João Alabá, conta a respeito de Bebiana:

Bebiana de Iyansã era uma pessoa muito divertida, o pessoal, também os clubes, eram obrigados a ir a lapinha cumprimentar el. Não era rica; além do santo, ela pespontava muitos calçados, tinha moças que trabalhavam para ela, em casa ela ganhava aquele dinheirinho. Quando tinha que dar festa, algum pagode, ela ia para a casa de seu João alabá, elas todas davam de comer ao santo na casa de meu pai João. Quando elas não queriam ir a Bahia iam na casa de meu pai.
Tia Ciata, por sua vez, também dava muitas festas. No fundo do quintal, o samba, o samba raiado, com mote e partido alto, o samba corrido, riscado nos pés, o samba de roda, que era constantemente perseguido pela policia. Na sala da frente, o baile. As casas das baianas promoviam essas reuniões pediam licença à policia para fazer um baile, um chá dançante.
Um depoimento de Donga, Ernesto dos Santos, que era filho de Tia Amélia Silvana dos Santos, ilustra a atuação da policia, na época em relação ao “mundo do samba”:
Os delegados da época, beleguins que compravam patentes da Guarda Nacional, faziam questão de acabar com o que chamavam “os folguedos da malta”. As perseguições não tinham quartel. Os sambistas, cercados em suas próprias residências pela policia, eram levados para o distrito e tinham seus violões confiscados. Na festa da Penha, seus pandeiros eram arrebatados pela policia.
N a festa da Penha , que tinha a mossa como preâmbulo para a colônia baiana e a comunidade negra, pontificava Tia Ciata com sua esmerada e apreciada culinária afro-baiana, em sua volta reuniam-se os melhores músicos negros de sua época, até a sua morte em 1920.
Outros Tios e Tias baianas formaram essa ambiência cultural que marcaria definitivamente a identidade sócio-cultural do Estado do Rio. Dentre esses, destacamos: Amélia Silvana dos Santos, mãe de Donga; Perciliana Maria Costança, mãe de João da Baiana, ou seja, João Machado Guedes; tia Sadata, da pedra do sal, que foi uma das fundadoras do rancho Carnavalesco Rei de Ouro, juntamente com Hilario Jovino; tia Gracinha, que foi mulher do afamado Assumano Mina do Brasil, etc.
Foi nessa ambiência cultural que o samba atingiu nas rádios, com Donga, e também que foi as ruas, com os ranchos, que estimulou o maxixe, o choro, e o surgimento de nomes como, além dos já citados, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Sinhô etc., etc.
A introdução dos Ranchos no Carnaval carioca foi invenção de Hilário Jovino Ferreira, Ogã do Terreiro de João Alabá, conhecido por Lalu de Ouro.
A tradição dos ranchos ou pastoris do ciclo natalino, de origem baiana, tinha seu ponto alto na lapinha, em São Domingos, onde residia Bebiana de Iyansã. Ela galvanizou a apresentação dos ranchos, mesmo depois que Hilário, Lalu de Ouro, resolveu incorporar o rancho Rei de Ouro nos desfiles do Carnaval. Esses ranchos recriados iam também cumprimentar Tia Bebiana na Lapinha.
Hilário nasceu em Pernambuco e passou sua infância em Salvador, de onde chegou ao rio já homem feito, em 1872.
Compositor, músico e capoeirista, tenente da Guarda Nacional

, Hilário, através das transformações do rancho e sua adaptação ao espaço social do Carnaval, mudaria substancialmente a feição embrutecida desta festa, oriunda dos tempos do entrudo.
Foi uma reunião no Café Paraíso, na rua Larga ( atual Marechal Floriano), que Hilário lançou para seus amigos, gente da “boa terra” a idéia da fundação do “Rei de Ouro”.

Fundei o Rei de Ouro, que deixou de sair no dia apropriado, isto é, 6 de janeiro, porque o povo não estava acostumado com isso. Resolvi, então transferir a sadia para o carnaval. (...)
Nunca se tinha visto aquilo aqui no Rio de Janeiro: porta-bandeira, porta-machado, batedores, etc. Perfeitamente organizados, saímos licenciados pela policia.

A partir do sucesso obtido pelo Rei de Ouro, Hilário deu seguimento a sua capacidade de liderança e iniciativa, fundando diversos ranchos, como a Jardineira, Filhas de Laranjeiras, Reino das Magnólias, Riso Leal, Ameno Reseda e muitos outros.
Embora os ranchos de carnaval, com o tempo, alterassem as características, Hilário não deixou de reverenciar Tia Bebiana, conforme a tradição dos ranchos, como se depreende desta publicação no Jornal do Brasil, de 21 de fevereiro de 1906:

A SCD, a Jardineira, comunica aos associados e admiradores desta sociedade que foi criado o grupo Me Queiras Bem, o qual, nas manhãs de 25,26, e 27, sairá à rua com o já conhecido garbo. E bem assim, que sábado de Aleluia o grupo iniciará com estrepitoso baile, a nova fase desta sociedade. Aproveitando a ocasião, convida todos os ranchos para que seja a lapinha conforme uso baiano, em casa de nossa camarada Bebiana, onde estarão os ramos para quem chegar primeiro chegar ao largo de São Domingos, n 7- o presidente Hilário Jovino

Durante as primeiras décadas do século XX, os ranchos se destacavam no carnaval do Rio de Janeiro. Elas instituíram as figuras graciosas do mestre-sala e porta-estandarte.
Como mestre-sala despontaram, além do próprio Hilário Jovino , o Getúlio Marinho, conhecido por amor, o Germano e outros que vieram posteriormente, a maioria das quais iniciados por eles, como Teodoro , Jõao Paiva , Maria Adamastor, Camarão , Piraquê, Marinho da Costa Jumbeba, etc.
Os ranchos do carnaval proliferaram no Rio de Janeiro , tia Ciata recebeu de Miguel Pequeno, que era um dos que acolhia em sua casa os baianos recém-chegados ao Rio, os papéis com licença da polícia para fundação do rancho Rosa Branca.Tia Ciata , certa feita, aceitou curar uma ferida crônica do presidente da república Wenceslau Brás. Uma vez curado, o presidente , em agradecimento, nomeou o marido de Tia Ciata para ocupar um posto no gabinete do chefe de polícia.
Esta nomeação e esse contado com a presidência permitiriam a casa de Ciata de outras “tias” e terreiros ficarem afastadas das perseguições policiais.
Tia Ciata aplicava seus ganhos na expansão e desenvolvimento de sua comunidade, fortalecendo seus vínculos institucionais:
...Da vida no santo e no trabalho, Ciata era festeira, não deixava de comemorar as festas dos orixás em sua casa da praça onze, quando, depois da cerimônia religiosa, , se armava o pagode. Nas danças , aprendera a mostrar o ritmo no corpo ,e, como relembra sua contemporânea D. Carmem, “levava meia hora fazendo miudinho na roda. Partideira , cantava com autoridade, respondendo , o refrão nas festas que se desdobravam por dias, alguns participantes saindo para o trabalho e voltando, Ciata cuidando que as panelas fossem sempre requentadas e o samba nunca morresse”. Há, na época, muita atenção da polícia ás reuniões dos negros; tanto o samba como o candomblé seriam objetos de contínua perseguição, vistos como coisas perigosas , como marcas primitivas , deveriam ser necessariamente extintas para que o ex-escravo se tornasse parceiro subalterno” do respeitabilidade do marido funcionário, que se soma a seu prestígio, garante o espaço em sua casa livre das batidas ao configurar-se como local favor
ável às reuniões. Um local de afirmação do negro, onde se desenrolavam atividades coletivas, tanto de trabalho- uma órbita do permitido apesar da progressiva atividades organizadas fora dos modelos da rotina febril- quanto de candomblé, e se brincava, tocava, dançava, conversava e organizava.
A organização da instituição religiosa, os valores de sua hierarquização se desdobravam no âmbito comunitário, propiciando a constituição dos ranchos. Os ranchos, no seu início, eram todos ‘despreocupados de alegorias , isentos de luxo e apenas , isto sim , com suas baianas caprichosamente vestidas com saias bonitas e sandálias de fino acabamento. Baianas que, bem no ritmo , afinadas na marcação dos pandeiros, dos tamborins dos ganzás, cantavam harmoniosamente”.
O extenso grupo familiar de Tia Ciata se organizava no Rancho Rosa Branca, onde despontava , como porta-estandarte, sua filha, Fátima , e, no bloco satírico O macaco é outro, fundado por germano, seu genro, onde despontava, como porta-estandarte, sua neta Licínia da Costa Jumbeba, conhecida como Lili , e seu irmão Marinho, mestre-sala.
Marinho também sobressaía-se Rancho Recreio das flores onde se organizavam os trabalhadores da estiva, participantes da Companhia dos pretos, depois denominada Resistência dos Trabalhadores em Trapiches de café.
O recreio imprimiu a rancho a idéia de constituir-se numa ópera ambulante. Assistindo óperas no municipal, lendo clássicos da literatura e da mitologia grega, ele fez sucessos no carnaval, apresentando temas como ‘Aída”, de Verdi, Inferno e Paraíso, de Dante. E com histórias dos deuses do Olimpo . com fantasias luxuosas e feérica iluminação, através dos holofotes do cais, que obtinha licença para utilizar nos cortejos, o recreio das flores assim se destacava
Antoniquinho se entregava durante meses ao trabalho de desenhar figurinos, supervisionando esculturas de papelotes, maquetes, alegorias.
 Em 1920, numa época em que os ranchos primavam no carnaval, eram nota de destaque no segundo dia dos festejos de momo; o Recreio das Flores empolgou o povo, que enchia a avenida Rio Branco, ao desfilar seu magnificante cortejo. Extraindo da Aida de Verdi o tema de seu enredo, o rancho provocou, com o espetáculo deslumbrante que realizava, uma tempestade de aplausos.
A comunidade baiana imprimiu, com sua presença características próprias às festas do largo. Até seu falecimento, em 1920, Tia Ciata não deixou de estar presente nelas, especialmente na Festa da Penha
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