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Re: Homenagem para Silas de Oliveira

Lista de discussão sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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pl_PL: Fernando Toledo (fernandotoledo_at_hobeco.net)
Data: ter 07 jan 2003 - 14:02:29 EDT

Vamos lá:

> " a maioria dos compositores, de 1955 para trás, fazia seus sambas em
caixas de fósforos." (Gil)

Não existe nenhum demérito em compor acompanhado unicamente de uma caixa de
fósforos, muito pelo contrário: e esta afirmação é baseada na diferença, que
muitos não-músicos não conhecem, entre melodia, harmonia e ritmo.
Os músicos, por favor, pulem os próximos parágrafos, que são
carne-de-pescocíssimos.
Ritmo é a marcação, a refrência cronológica da música, o que permite saber a
hora de emitir determinado som, dentro da estrutura da canção.
Melodia é a sequência de notas, o que caracteriza, por excelência, a
composição. É, nas composições populares, geralmente monofônica (a garganta
humana só emite uma nota de cada vez).
Harmonia é a justaposição de notas, os acordes enfim. Por definição
polifônica (mais de uma nota ao mesmo tempo).
Num sentido gráfico, numa partitura, a melodia e o ritmo atuam de forma
horizontal (ao longo do correr da partitura), e a harmonia de forma vertical
(as notas que soam ao mesmo tempo, ou não).
Compor auxiliado apenas por uma caixa de fósforos implica numa melodiosidade
interna altíssima, pois não existe nenhum instrumento harmônico à
disposição, apenas o sentido cronológico e a melodia, nota-a-nota, na cabeça
do compositor. Logo, para compor sem auxílio de harmonia, ou apenas baseado
na harmonia implícita, requer uma capacidade musical elevada.
Daí os compositores de caixa de fósforos, quando atingem alto nível
estético, poderem ser considerados criadores inerentes mais capazes que os
que se sentam ao lado de uma orquestra e ficam pedindo o Dó Maior pro
maestro.
Resta saber se o Gil declarou isto de forma pejorativa ou elogiosa.

> quanto ao samba segue a lista dos que repreenderam o samba , no auge da
Bossa Nova (Samba Moderno):

Omiti a sequência, pois as mensagens ficam arquivadas e ocupam espaço. Para
consultá-la, acessar a mensagem do Newton.
Bem, o que se pode dizer destas declarações é que todas são oriundas de um
deslumbramento inicial em relação a uma nova forma que surgia, o mesmo que
fazia os roquenristas desprezarem Louis Armstrong e Frank Sinatra, guardadas
as proporções. Parece, inclusive, bem típico de declaração de (pós)
adolescente, período em que todo o mundo parece ter sido decifrado a partir
da imposição dos hormônios.
Creio que não mereçam ser levadas em conta, porque muitos dos declarantes
gravaram Cartola, Lupiscínio, Nélson Cavaquinho, Zé Keti et um monte de
coeteras a posteriori, quando o organismo já se acalmara e permitia que o
cérebro aprimorasse seu teor crítico e estético.

> Eis aí estampadas em toda a crueza as consequências do distanciamento
entre a "cultura oficial" e a cultura popular.
> Nelson Mota, representante da Bossa Nova, incorria num duplo erro. Em
primeiro lugar, a teoria de que a obra de arte deve ser antes de tudo
original só é aceita passivamente nos subúrbios do universo intelectual.

E onde a bossa nova é tão puramente original? Dêem uma olhada em certas
obras de Geraldo Pereira e Ary Barroso e encontrarão muitos dos elementos de
bossa nova, contudo sem a afetação pequeno-burguesa que, infelizmente,
permeou muito de sua temática e forma de execução. Se alguém se dispuser a
tocar "Mascarada" (do Zé Keti) ao violão, observará que a harmonização é
muito parecida, nos primeiros compassos, com a de "Este seu olhar". E não me
parece que o Zé Keti tivesse muita idéia da função de ligação dos diminutos
em uma cadência...

> Em segundo lugar - e corroborando a opinião de Popper - quem realmente
estava inovando não era a turma da Bossa Nova.
> Era o sambista _ Silas de Oliveira a frente fixando um gênero
originalíssimo
> o samba enredo, era Pixinguinha criando um estilo de contraponto no
saxofone.
> Era Dino ampliando a presença e as possibilidades contrapontísticas do
violão de sete cordas
> eram os cavaquinistas que aliavam a originalidade do timbre com os
esquemas rítmicos cheio de "bossa".

Exatamente, e creio que a turma de declarantes citada, toda composta de
músicos excepcionais, veio a perceber isto quando cresceu um pouquinho.

Um abraço,
Fernando Toledo
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