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Luiz Grande, Barbeirinho e Marco Diniz fazem a música do Brasil

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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 9 de Maio de 2003 
Assunto: CDs

  ampliar Divulgação/2003  
Capa do disco do Trio Calafrio
Capa do disco do Trio Calafrio
A gangue das grandes gravadoras dizem muitas coisas absurdas. A que mais me irrita, e que chega a ser repetida por alguns Grandes-Nomes-da-MPB®, tenta justificar a música ruim que toca nas rádios e TVs: "Com a entrada no mercado de um novo segmento da população com o Plano Real, a programação dos meios de comunicação veio a refletir seu gosto." Não, o pior não é a cara de pau de fingir que a programação é espontânea, em vez de ser bancada pelo jabá das gravadoras. Irrita é adicionarem o desaforo à desfaçatez, afirmando que "o povão gosta é de música ruim". Haja facismo. Parece até que o melhor da música deste país não foi feita pelo operário Cartola, pela enfermeira Dona Ivone Lara, pelo ajudante de pedreiro João do Vale, pelo soldado Luiz Gonzaga, pelo pedreiro João Pernambuco, e por tantos outros mais que, enquanto a elite e classe média ficam ouvindo e copiando a última porcaria importada, criaram a melhor música popular do mundo. Por isso, sempre me animo quando dou de cara com um disco como "Trio Calafrio", dos sambistas Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho e Marquinhos Diniz. Você já conhece várias músicas da trinca nas vozes de gente como Zeca Pagodinho, João Nogueira e Bezerra da Silva, tem a chance de ouví-las pelos próprios autores. Só samba de primeira. São músicas cheias de bossa, rimas espertas e letras inteligentes. O trio faz crônicas do dia a dia, da cabritada mal sucedida, de personagens que todo mundo conhece alguém parecido, dos filhos de barriga vazia, de amor com poesia e até critica os políticos. Tudo isso sem perder o bom-humor um só momento. Luiz Grande, Barbeirinho e Marcos Diniz fazem a música do povo brasileiro.

Luis Grande, da ala de compositores da Imperatriz Leopoldinense, é o veterano. Parece ser especialista em participar de discos de samba "pau-de-sebo", desde o antigo Partido em 5, aos recentes Meninos do Rio e Quintal do Pagodinho. Teve várias músicas gravadas por João Nogueira, sendo ainda um cantor cheio de bossa. Marcos Diniz vem de família ilustre, é filho de Monarco da Velha Guarda da Portela e irmão de Mauro Diniz. Barbeirinho traz seu bairro no nome e tem feito música pra muita gente, de disputas de samba-enredo a Bezerra da Silva e Zeca Pagodinho. Aliás, o Zeca é o padrinho do trio, tendo gravado várias de suas músicas e chamado-os para gravar no disco Quintal do Pagodinho. A ele foi dedicado o disco.

Das 16 faixas do repertório só quatro são mais conhecidas: um sucesso cheio de suingue de João Nogueira, Maria Rita, e três do repertório do Zeca Pagodinho, Parabólica, Conflito (roubaram o cabrito...) e Mary Lu. A começar pela capa parodiando os Beatles, o disco é muito engraçado. Como musicalmente também é muito bom, dá para ouvir várias vezes sem enjoar ou achar que se está ouvindo uma piada repetida. Entre as hilárias há a CPI da Peruca de Touro (cujo personagem é o papagaio da piada), Dona Esponja (que recebe um santo suspeito) e Embrulho (todos têm medo do que tem dentro). Eles também celebram o samba em Caprichos da Lira e Deixa de Marra, gozam com a aposentadoria de políticos em Jeton e são pungentes em Na Hora que a Barriga Ronca. Não espere ouvir nenhum verso falando de relicário ou lacrimário, as letras vêm cheias gíria. Nei Lopes chegou a fazer um glossário no encarte, o que até tira um pouco a graça quando vira explicação de piada.

Não é preciso falar muito a respeito da qualidade musical, bastaria dizer que é um lançamento da Carioca Discos, com direção musical de Paulinho Albuquerque. Só que é sacanagem deixar de citar músicos tão bons. Os arranjos ficam por conta de Cláudio Jorge, Leandro Braga, Wanderson Martins e Itamar Assiére. No instrumental só tem gente que sabe tudo de samba: Gordinho (surdo), Carlinhos Sete Cordas, Márcio Almeida (cavaquinho), Jorge Gomes (bateria), Ovídio Brito (percussão), Marcelinho Moreira (percussão), Ilton do Candongueiro (pandeiro), Ivan Machado (baixo), Sérgio de Jesus (trombone), Jessé Sadoc (trompete), Pirulito (percussão), Armando Marçal (tamborim), Humberto Araújo (saxes e flauta), Jorge Hélder (baixo) e Ivan Mendes (clarinete). De vez em quando o capricho é tanto que até dá a impressão que ficaria mais divertido se fosse um pouco mais bagunçado.

Você pode comprar aqui o disco. Veja que a cada venda, ganhamos uma pequena comissão. Independente de onde comprar, não perca a chance de conhecer três ótimos artistas que saem dos créditos do encarte para a capa do CD. Depois volte aqui e faça seu comentário dizendo o que achou.

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Comentários dos leitores

Ler essa materia me faz ter certeza que nao estou louca ou exigente demais. Tem muita gente boa dando a força a muito jaba musical para ser politicamente correta.
SYLVIA PALHARES MARINHO
9 de Maio de 2003 #

Ah, Paulo, vou comentar mesmo antes de comprar... :) Adorei seu texto combativo. Gente, aqui no Rio esses três estão sempre participando de alguma roda e posso garantir que são 10!

Repare na voz do Luiz Grande, repare! Muita gente que só o conhece como compositor de "Maria Rita" e "Talento e Sacrifício" se surpreende quando ele canta, que voz bacana, que suingue!

Aproveito para transcrever um trecho de "Talento e Sacrifício", um hino à vida de músico:

"Fazer samba
desde menino eu aprendi
Ser um bamba
Eu lutei muito e consegui (eu consegui)
Porém divulgar o que faço é tão difícil
Quase ninguém reconhece o talento e o sacrifício
Mas não vou desanimar
Seja o que Deus quiser
Porque tambéma aprendi remar contra a maré..."
Eugênia Rodrigues
9 de Maio de 2003 #

Eu só posso exclamar: QUE MARAVILHA!!!Porque noticias e lançamentos como este não acontecem sempre?Só o vil metal é que pode responder. Parabéns aos autores desse lançamento!
valter burri
9 de Maio de 2003 #

Com essa turma aí nem é preciso ouvir o disco para falar bem dele.
É disso que nosso Brasil precisa. Gente que, mesmo sem jabá, vai à luta e bota nomercado seu valiosíssimo produto.
Viva todo esse belíssimo samba!

Pedro Paulo das Chagas

09 de maio de 2003
PEDRO PAULO DAS CHAGAS
9 de Maio de 2003 #

Luiz Grande, Barbeirinho e Marquinhos Diniz brilharam no projeto PERSONALIDADE DO SAMBA, no Espaço Cultural Constituição, em 2001.
O TRIO CALAFRIO é a prova da verdadeira renovação da Música Popular Brasileira.
A obra dos compositores tem ligação direta com seu estilo de vida. Isto sim é cultura popular.

Parabéns a Carioca Discos!
mauro vianna
9 de Maio de 2003 #

viva o verdadeiro samba.
nota dez e olha que eu ainda nem ouvi o cd. viva o samba!!!
douglas lourenço xavier
11 de Maio de 2003 #

Apesar do esforço das grandes(?!?!)Gravadoras para criarem um único estilo UNIVERSAL de música, a qualidade ainda sobrevive e consegue seu espaço. Por isso a nossa tão rica música ainda segue incólume. O Trio Calafrio é uma prova de que ainda se pode fazer aquele samba redondo, informal e de muita sabedoria popular. Com certeza comprarei o disco.
Magnífico o trabalho da Carioca Discos !!
Ricardo Brigante
12 de Maio de 2003 #

Já ´participei de inúmeras rodas com o "CALAFRIO". Sempre gostei muito,nada mais...Até um dia , em uma festa na casa do Ilton e da Hilda, do Candongueiro, tive a sorte e a honra de me sentar na mesma mesa em que eles cantavam... ali bem perto de mim. Pude então , pela primeira vez,prestar atenção só neles e nas letras dos sambas.Só então pude perceber a qualidade das composições, a qualidade do humor.Como são histórias , com começo, meio e fim, o sabor a graça e a originalidade dos temas só podem ser integralmente absorvidos se prestarmos plena atenção. Aí vai, pois, um toque:
por mais qua cerveja esteja gelada, por mais que o samba esteja quente, quando se tratar de Barbeirinho, Luiz Grande e Marquinho Diniz, já sabe, preste muita atenção...
Luis Carlos Magalhães
13 de Maio de 2003 #

ahhh...eu gosto mesmo é do Raça Negra e Vavá....rs...
Goberth Ternurinha
15 de Maio de 2003 #

O jornal O Dia publicou uma reportagem sobre o disco, com direito a frases dos músicos. A que eu mais gostei foi do Marquinhos Diniz: "Minha sogra gostou do CD. Acho que dá para vender 500 mil. Meu medo era ela não gostar. A velha não gosta nem dela"
Paulo Eduardo Neves
16 de Maio de 2003 #

GOBERTH TERNURINHA EU RESPEITO A SUA OPINIÃO,MAS SE VOCÊ GOSTA DO VAVA QUE PROCURE ELE E FAÇA BOM APROVEITO´SÓ NÃO VEM PARA O SAMBA E CHORO FALAR ESSA BESTEIRA PORQUE AQUI SE FALA DE SAMBA DE VERDADE E NÃO DISSO QUE VOCÊ ESCUTA E AINDA TEM CORAGEM DE DIZER QUE É SAMBA. E TEM MAIS, SE QUER APRENDER ALGUMA COISA NA VIDA ESCUTE UM POUQUINHO DO TRIO CALAFRIO.
wilson moura
16 de Maio de 2003 #

Adoro o Trio... eles são muito divertidos... no Candongueiro, em Niterói, tem gente que vai ao samba só por causa deles... (sem querer desmerecer os outros, que também são muito bons).... mas PÔ!!!!! estou procurando o CD em todas as lojas e ninguém tem ... Ô distribuidora!!!! Agiliza isso aí, caso contrário, nem com o apoio da sogra Marquinho Diniz eles vão chegar aos 500 mil.
Daniel Pereira
16 de Maio de 2003 #

O jornal O Globo publicou esta reportagem sobre o disco:


O trio que provoca calafrios em Zeca

João Pimentel

Três compositores dos mais requisitados do samba atual, autores de músicas gravadas por Beth Carvalho, João Nogueira, Zeca Pagodinho e outros, Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho e Marcos Diniz formaram há quase uma década um trio de arrepiar. Personagens cariocas, os três, apesar de terem traçado caminhos diferentes no mundo do samba, são, hoje, a grife de um estilo que ganhou um novo sopro de vida pelas mãos da turma do Cacique de Ramos, a partir dos anos 80, e, principalmente, na voz de Zeca Pagodinho: o partido alto. E foi numa roda em Xerém que Pagodinho, ao ver os três versando, não titubeou: "Caramba, é o Trio Calafrio". O nome pegou e os três sambistas, autores de sucessos como "Caviar", "Parabólica" e "Conflito", têm agora a chance de cantar seus próprios sambas no CD "Trio Calafrio" (Carioca).

Sambas trazem crônicas dos morros cariocas

Barbeirinho, como o nome indica, é filho de um barbeiro, que, nas horas vagas, tocava acordeão. Se com a tesoura se mostrou uma tragédia - na primeira vez que tentou cortar o cabelo de alguém o irmão ficou sem um pedaço da orelha - empunhando um cavaquinho Barbeirinho começou a fazer música nas ruas do Morro do Jacarezinho, até se descobrir compositor:

- Comecei a compor meio por acaso. Cheguei em casa, a mulher estava jogando dominó enquanto o feijão queimava. Talvez para descarregar a raiva fiz um samba - conta. - Mas o primeiro gravado foi "Apertar o cinto". Eu estava na janela, assistindo à televizinho , quando o presidente Figueiredo fez um pronunciamento dizendo para o povo apertar o cinto. Eu pensei: "Se eu apertar a minha barriga, vai parar nas costas".

A música foi gravada por Bezerra da Silva. Mas foi um encontro casual com Zeca que fez de Barbeirinho um nome conhecido no samba.

- Luizinho da Farmácia me apresentou a Zeca, e mostrei algumas músicas. Depois que cantei "Fiquei amarrado na sua blusinha", ele me deu as costas, foi para o fundo do quintal. Dias depois, cheguei no Jacarezinho e me disseram que ele me procurava.

Barbeirinho teve essa e outras músicas gravadas por Zeca. Mas o primeiro parceiro fixo dele foi Marcos Diniz, filho de um mito do samba carioca, Monarco, da Portela. Nascido em Madureira, Diniz cresceu acompanhando o pai e bebendo direto na fonte de uma das matrizes do samba carioca.

Mas, se a divisão rítmica, as melodias e letras de bambas como Manacéia, Chico Santana e do próprio pai embalaram o garoto, foi nas imagens do cotidiano do subúrbio e do morro e no bom humor típico do carioca comum que Diniz se inspirou desde o começo.

- Fui criado no Morro da Congonha. Meu linguajar vem de lá. Não procuramos rimas bonitas, não temos a intenção de fazer literatura. Somos cronistas da favela, do subúrbio.

Pouco depois de firmada a parceria, Diniz disse a Barbeirinho que iria convidar um sambista da pesada para fortalecer o time. Luiz Grande, nascido em Copacabana ("Tive sorte, minha mãe trabalhava na casa de uma madame"), é um dos raros intérpretes do samba sincopado.

- Luiz Grande, ao meu ver, é o último de uma linhagem de cantores de samba sincopado, como Geraldo Pereira, Ciro Monteiro, João Nogueira - lembra o produtor do CD, Paulinho Albuquerque.

O bom humor característico do trio não é deixado de lado nem quando entra em questão as dificuldades do ofício de compositor no Brasil. A musica "Caviar", por exemplo, uma das mais tocadas nas rádios, rendeu ao trio a pequena fortuna de R$ 5,90.

- O cara do Ecad distribui de acordo com o endereço. Se o compositor mora em Inhaúma, no Jacarezinho, qualquer merreca para a feira tá legal - ironiza Luiz Grande.

- Como diz a música, eu continuo comendo ovo frito, farofa e torresmo. Como é que pode? - indaga Barbeirinho.

- E eu vou fritando o meu peixe na mesma banha - completa Diniz. - O maior mote é ver a barriga do moleque roncando e a geladeira vazia. E eu tenho 14 filhos.

- O pior é que ninguém reconhece o compositor. Eu era motorista de táxi quando "Maria Rita" estourou com João Nogueira. Sempre que tocava no rádio e o passageiro mandava aumentar, queria dizer que era minha. Mas nunca tive coragem - diz Luiz Grande.

- Outro dia fui cantar "Caviar". Anunciei dizendo que era minha e de meus parceiros. O malandro gritou lá de trás que se "Caviar" era minha ele tinha feito "Parabéns pra você" - conta Diniz.

Os três apostam no disco para ficarem tão conhecidos como suas músicas. Marcos Diniz já prevê o sucesso:

- A minha sogra disse que o disco tá bom. Por isso acredito que vamos vender umas 200 mil cópias. A velha não gosta nem dela mesma...

O disco, claro, é dedicado ao padrinho Pagodinho, que não economiza elogios:

- Eles têm grandes idéias, são bons de letras e melodia.
Paulo Eduardo Neves
20 de Maio de 2003 #

Não é brincadeira não,(Luiz grande,marcos diniz e barerinho) três malandros do mundo do samba,reunindo o que tem de melhor do partido alto ao samba sincopado.Parabêns rapaziada...
Um grande abraço, Lauro Alfradique.
Lauro Augusto faria Alfradique
20 de Maio de 2003 #

Recebi somente agora o relise escrito pelo Nei Lopes para o disco. Está bem legal. Acho que vale a pena compartilhar com vocês.

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TRIO CALAFRIO _ release

Se dependesse das intenções dos grandes conglomerados que hoje ditam a regra no mercado mundial do entretenimento, a música popular brasileira seria, toda ela, igualzinha à de todo o mundo: o mesmo play-back, o mesmo romantismo infantil e sexualizado, as mesmas letras sem conteúdo. Música que faça parar, refletir, tirar conclusões? Neca de pitibinéris! Nem pensar!

Pois são essas intenções muito bem esquematizadas, num plano estratégico que visa à vampirização da melhor música do planeta para transformá-la num caldo só, insípido, inodoro e incolor; são essas estratégias que absorvem o discurso naturalmente agressivo do gueto mas calçando-lhe um reebok, um nike ou um mizuno desses aí, e jogam o samba pra escanteio - porque o samba gosta mesmo é de calça da "boca do linho", no Campo de São Cristóvão; de pisante do Souza ou do Motinha; e "cobertura" da Chapelaria Porto, na Senador Pompeu.

Pois as corporations não são trouxas. E, do gueto, só absorvem o discurso que pode dar uma mãozinha nos seus negócios. Inclusive o da violência urbana e da guerra como um todo. O discurso que corrói por baixo e por dentro, mesmo; esse que os romanos já temiam; que ao mesmo tempo diverte, educa e destrói (o que não presta)... Esse não! Pelo amor de Dólar!

Num país em que as concessões de radiodifusão são feudos intocáveis, uma parabólica trazida pelo temporal, e que o malandro fincou no barraco na maior cara de pau, vale mais do que 500 projetos de lei sobre a democratização dos meios de comunicação. Da mesma forma que o "Samba do Jeton" instrui as discussões sobre a reforma previdenciária. E na mesma medida que a história da Mary Lou - que, com os cacarecos que ganhou das patroas bacanas, montou um antiquário - vale mais como dica de ascensão econômica do que qualquer manual do SEBRAE.

E, na hora que a barriga ronca? Fazer o quê? Meter bronca, claro! Mas sem apelar pra ignorância. E dando aula de criatividade.

Pois criatividade (a ponto até de se comunicarem numa linguagem toda própria e pessoal,) é o que não falta ao Trio Calafrio- cujo nome, aliás, nasceu da inventiva de outro brilhante filho da periferia: Zeca Pagodinho.

O motorista de táxi Luiz Grande, bamba da Imperatriz Leopoldinense, é um dos grandes estilistas do samba. Seu jeito peculiar de compor, com ênfase no sincopado, está presente em antológicas gravações do saudoso João Nogueira, como naquele suingado "por onde andará Maria Rita?" ainda nos anos 70. Já Barbeirinho (cujo apelido é mais que uma carteira do Ministério do Trabalho), letrista de rara inventiva, cavaquinista esperto e cria dos Unidos Jacarezinho, chegou depois mas chegou bonito, principalmente na voz de Zeca Pagodinho. E na lateral esquerda, Marcos Diniz, irmão de Mauro e filho de Monarco, de quem herdou a bela voz; e, como o pai, fazendo a ponte melódica entre o Jacarezinho e Osvaldo Cruz, de maneira tão poética quanto irônica e tão sarcástica quanto lírica.

Enfim, o que é preciso dizer é que botar o dedo na ferida , sacaneando, debochando do opressor e se possível passando a mão na bunda dele, incomoda muito mais do que latir na cara de quem tenta nos excluir e anular. E esse é o grande lance do Trio Calafrio. Que sabe fazer samba romântico também; e dançante, como, por exemplo, os gostosíssimos Pouco Importa a Tranca (um espontâneo samba-jazz !) e Mary Lu, vestidos para o baile pelo suíngue e a sensibilidade dos grandes Leandro Braga e Itamar Assiere.

O íntegro Paulinho Albuquerque, amigo do samba e do sambista, que vai de New Orleans a Seropédica sem se perder, teve a clareza de se cercar de alguns dos melhores músicos da atualidade brasileira. Sem Berklee, sem Los Angeles, sem babaquice, desfilam por este disco timbres, sons e nuances rítmicas na medida. Como requer a brasilidade e a inventiva do Trio Calafrio.

Este é pois um disco ímpar. No qual as palavras-chave são: criatividade e identidade.

E aí eu me lembro que, noutro dia, numa entrevista sobre um grupo de rap caribenho que estão querendo transformar em bola da vez, um marqueteiro de gravadora disse: "Está difícil! Eles são muito latinos para o mercado do rap e muito rappers para o mercado da música latina!".

Não é engraçado?

Nei Lopes - Janeiro, 2003
Paulo Eduardo Neves
22 de Maio de 2003 #

Muito bom o disco. Mas acho que o Paulo se enganou. Não tem Maria Rita no cd.

abraço,

Julio
Julio Vellozo
26 de Maio de 2003 #

Vixe, acho que estou ficando doido. Daonde é que eu tirei a Maria Rita? Desculpem a falha.
Paulo Eduardo Neves
27 de Maio de 2003 #

É muito bom saber da existência deste disco, sou compositor, cavaquinista do grupo Idioma Popular e também grande fã do samba verdadeiro. E para o compositor que ficou no esquecimento, eu escrevo para vocês um samba que eu fiz.

Vai ficar gravado na memória
que não foi dada a glória para o compositor
triste imprevisto da história
o poeta agora chora, mas o bom artista
não guarda rancor
lamenta, cantando um novo verso
pra esquecer o adverso e
pra superar a dor
esperando que algum dia derrepente
apareça em sua frente
alguém que lhe dê valor

A felicidade de um sambista
é escutar o seu samba ser cantado
simboliza a maior conquista
quando consegue passar o seu recado
por isso eu peço ao menos uma vez
quando escutar um samba
saiba primeiro quem fez
por isso eu peço ao menos uma vez, por favor
quando escutar um samba prestigie o compositor.

É isso aí gente, vamos prestigiar e enaltecer os compositores nota 10, que fazem o samba verdadeiro, e o...

Partido Alto, 27 de maio de 2003.

Guilherme Lacerda - São Paulo/ Vila Mariana
Guilherme Lacerda - Vila Mariana/SP
27 de Maio de 2003 #

No meu comentário sobre o Luiz Grande (ultimo grande interprete do samba sincopado) lembro que mencionei ainda o Zeca Pagodinho. Esqueci apenas - e me penitencio - do grande Wilson das Neves, herdeiro direto do Ciro e meu grande amigo, graças a Deus !.
paulo albuquerque
27 de Maio de 2003 #

Na qualidade de um dos sócios da Carioca Discos, sou supeito para falar do Trio Calafrio.Mesmo assim lá vai: Chorei, gente. Chorei muito quando ouvi o disco masterizado no meu carro. Eu que acompanhei todo processo da brilhante produção do meu amigo Paulinho Albuquerque fiquei emocionado quando ouvi calmamente o disco pronto. O Trio Calafrio dá uma aula de Samba, uma aula de carioquismo, uma aula de enfrentamento da dura realidade que cerca o sambista e o povo da chamada "periferia" do Rio de janeiro. Aliás, pra mim, o centro das coisas está na periferia. O Trio Calafrio, em fim, dá uma aula de bom humor.Aí eu chorei de rir também.
Cláudio Jorge
Cláudio Jorge de Barros
30 de Maio de 2003 #

Mais uma crítica elogiosa, agora no Estado de Minas
Paulo Eduardo Neves
12 de Junho de 2003 #

Mais uma breve crítica do disco do Trio Calafrio. Desta vez no sítio No Mínimo.
Paulo Eduardo Neves
11 de Agosto de 2003 #

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